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Lula e o Brasil: a política fiscal e as eleições

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Há uma frase, atribuída ao antigo governador de São Paulo Orestes Quércia, que resume uma forma particular de exercer o poder: «Quebrei o Banespa, mas elegi o meu sucessor.» Esta semana, o maior jornal do Brasil, o Estadão, recuperou essa frase para descrever o momento que atravessa a maior economia da América Latina. E o diagnóstico, vindo de um jornal insuspeito de radicalismo, é severo: a política fiscal brasileira está a ser orientada pelo calendário eleitoral, em detrimento da sustentabilidade das contas públicas.

Como brasileiro que vive da análise financeira e que escreve para leitores portugueses, sinto o dever de explicar o que isto significa. A situação que se desenrola no Brasil é um caso de estudo, em tempo real, sobre os riscos de uma expansão fiscal desenhada para produzir efeitos de curto prazo. E é uma matéria que a Europa, habituada às suas próprias engenharias orçamentais, faria bem em acompanhar.

33 medidas, R$ 215 mil milhões, uma ordem de grandeza preocupante

O número que ninguém tinha tido a paciência de somar foi calculado por Marcos Mendes, economista, investigador associado do Insper e meu colega de profissão no ensino, num relatório técnico para a XP Investimentos a que tive acesso na íntegra.

O resultado é expressivo. Apenas em 2026, foram adoptadas 33 medidas de aumento de despesa ou redução de receita, somando R$ 215 mil milhões (aproximadamente 37 mil milhões de euros). Para se perceber a verdadeira dimensão, este valor equivale a 1,6% de tudo o que o Brasil produz num ano. Para contextualizar ainda melhor, a célebre «PEC da gastança» de 2022, à época tratada como um escândalo nacional, libertou R$ 168 mil milhões (cerca de 29 mil milhões de euros). O volume actual já ultrapassou esse valor, distribuído por medidas espalhadas ao longo de um ano eleitoral.

Tomadas isoladamente, muitas destas medidas parecem inofensivas e até justificáveis. Somadas, representam uma expansão fiscal de grande magnitude. E a concentração temporal, num ano em que o Presidente se recandidata, é, como observou o Estadão, uma coincidência digna de nota.

A engenharia contabilística que reduz a........

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