À força de querer criar uma primeira boa impressão, Luís Montenegro impressionou pela velocidade da sua primeira medida, promovendo o regresso do antigo logótipo da República Portuguesa. A meio da tarde de terça-feira, estava fresquinha a tomada de posse do primeiro-ministro e dos seus 17 ministros, foi no regresso ao passado que se escudou a primeira medida do XXIV Governo de Portugal. De volta estão as quinas, o brasão, os castelos, o escudo, a esfera armilar, como se alguém os tivesse subtraído à bandeira nacional por uma súbita vontade de erradicar a portugalidade.

Medida anunciada por Montenegro no início de Dezembro em clima de plena pré-campanha eleitoral, acaba por ser um acto de comunicação tão significante como a simbologia que veta e faz proscrita. Que o tenha escolhido como tiro de partida para a acção governativa demonstra um posicionamento ideológico e simbólico forte mas que nem por ser possante se revela certo. Pelo que em tão curto espaço de tempo revela, pela facilidade do “timing” e pela cedência ao populismo de “design de café”, é quase uma sátira para quem promete verdadeiras mudanças. Eventualmente, há uma boa estratégia para uma direcção errada.

Se o agora ex-logótipo da governação lusa significava um belíssimo passo à frente numa desconstrução em alinhamento com outros exemplos europeus, o regresso à bandeira nacional é um caso infeliz de pleonasmo. Mais do mesmo. Há quem acuse o designer Eduardo Aires de ter ido ao “paint” para criar a feliz simbologia da comunicação do Governo de Portugal que agora Montenegro resolve desprezar. Algo insólito e ridículo. O ímpeto de transformar não é propriamente procurar ansiosamente o que foi deixado no lixo mal se liga o computador. Se Eduardo Aires foi ao “paint”, Luís Montenegro foi à “recycle bin”.

Se a simbologia importa, o diabo não está só nos detalhes. Por não comparência, a ausência de Pedro Nuno Santos na tomada de posse do novo Governo é um acto menor de oposição, questionável, estrategicamente difuso num momento crucial em que as instituições interessam e têm de ser defendidas de forma indiscutível. Está na simbologia dos primeiros actos. Para combater a demagogia, pede-se mais a quem lidera e a quem questiona a liderança.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

QOSHE - Do “paint” à “recycle bin” - Miguel Guedes
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Do “paint” à “recycle bin”

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05.04.2024

À força de querer criar uma primeira boa impressão, Luís Montenegro impressionou pela velocidade da sua primeira medida, promovendo o regresso do antigo logótipo da República Portuguesa. A meio da tarde de terça-feira, estava fresquinha a tomada de posse do primeiro-ministro e dos seus 17 ministros, foi no regresso ao passado que se escudou a primeira medida do XXIV Governo de Portugal. De volta estão as quinas, o brasão, os castelos, o escudo, a esfera armilar, como se alguém os tivesse subtraído à bandeira nacional por uma súbita vontade de erradicar a........

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