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Fed sob nova direção: Kevin Warsh deve ter um despertar desagradável

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11.03.2026

NOVA YORK – Agora que Kevin Warsh foi nomeado para o cargo de presidente do Federal Reserve (o BC dos EUA), vale a pena perguntar em que medida o Fed de Warsh será diferente do atual.

O presidente Donald Trump deixou claro que quer um presidente do Fed que pressione por taxas de juros mais baixas para estimular a economia e apoiar sua agenda mais ampla. Contudo, Warsh tem um histórico de política monetária “hawkish” (postura rígida contra a inflação), expressando preocupações com o risco de inflação excessiva, mesmo durante o ciclo deflacionário pós-2008. Além disso, ele é um globalista republicano mainstream que favorece o livre comércio e a imigração, não um ideólogo protecionista-nativista do Maga.

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Então, por que Trump o escolheu? Além da necessidade de acalmar os mercados, que ficaram assustados com os ataques dele à independência do Fed, uma razão pode ser que Warsh acredita que a IA e outras inovações tecnológicas reduzirão a inflação e, assim, permitirão taxas de juros mais baixas.

Mas há um problema aqui: se a IA reduzir a inflação, isso ocorrerá por meio de um crescimento maior do PIB e da produtividade, o que implica a necessidade de uma taxa de juros real (ajustada pela inflação) e uma taxa real de longo prazo mais altas, mesmo que uma inflação mais baixa implique uma taxa de juros nominal potencialmente mais baixa.

Em resumo, a IA não justificaria necessariamente uma taxa de fundos federais neutra mais baixa. Se Warsh e o outro aliado de Trump no conselho do Fed, Stephen Miran, pensarem o contrário, podem ter uma surpresa desagradável.

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Uma segunda razão possível é que Warsh manifestou apoio a políticas de flexibilização do crédito. Mas também aqui pode haver um problema. Com Michelle Bowman, outra nomeada por Trump, agora responsável pela supervisão bancária, é provável que o Fed de Warsh vá acelerar os esforços para flexibilizar condições de crédito, mesmo com o risco de alimentar bolhas de crédito e de ativos.

E isso, por sua vez, poderia comprometer a estabilidade financeira num momento em que os mercados já estão efervescentes, a alavancagem é alta e o crédito privado está instável.

Warsh acredita que a redução do balanço do Fed permitirá uma redução mais acentuada das taxas de juros, com base no argumento de que o aperto quantitativo (quantitative tightening – QT, na sigla em inglês) causa um aperto nas condições financeiras.

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Mas ele está simplesmente errado sobre isso. Sob o regime pós-2008, as taxas de juros sobre reservas excedentes pagas aos bancos anulam o impacto dessas reservas na criação de crédito e condições financeiras.

É por isso que o Fed conseguiu reduzir seu balanço em 25% sem provocar condições financeiras mais restritivas. Não há razão para pensar que mais QT justifique taxas de juro muito mais baixas.

A oposição de Warsh ao atual regime de reservas amplas pode se voltar contra ele. Afinal, a recente política agressiva de QT já pressionou tanto os mercados de recompra e monetários que o Fed teve de voltar a adotar uma flexibilização quantitativa indireta (por meio da compra de títulos de curto prazo e recompras reversíveis) em dezembro passado.

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Se Warsh quer mesmo evitar novos episódios de flexibilização quantitativa de emergência, ele deve favorecer reservas excedentes amplas, e não se opor a elas. Se ele não consegue ver isso agora, perceberá na próxima vez que ocorrerem tensões financeiras.

Além disso, Warsh sugeriu que pode apoiar um novo acordo entre o Fed e o Tesouro, no qual a política monetária seria ainda mais distanciada da política fiscal e da gestão da dívida pública. Por exemplo, isso poderia significar a redução do balanço do Fed e a compra de dívida pública de curto prazo em vez de títulos de longo prazo – como era o caso antes da crise financeira global.

Porém, deixando de lado o fato de que isso também poderia eliminar aos poucos o regime atual de reservas abundantes, reduzir ainda mais as participações do Fed em obrigações de longo prazo forçaria o Tesouro a redobrar sua política de emissão estratégica de títulos do Tesouro (Activist Treasury Issuance – ATI, na sigla em inglês), o que implicaria manipulação ainda maior do mercado de dívida de longo prazo e títulos hipotecários.

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Na verdade, um novo acordo entre Fed e Tesouro poderia levar a ainda mais ATI dissimulada e a uma mistura maior de política monetária e fiscal – exatamente o oposto do objetivo declarado do acordo. Será que Warsh ou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, levaram esses riscos em conta?

Warsh também condenou a “derrapagem da missão” do Fed em questões como estabilidade financeira, mudanças climáticas e desigualdade.

Mas a estabilidade financeira deve ser sem dúvida um objetivo do Fed, especialmente se outras políticas do Fed puderem levar a uma flexibilização excessiva do crédito.

Além disso, como as mudanças climáticas podem afetar a estabilidade financeira, devido aos grandes estoques de ativos potencialmente em dificuldades, deteriorados ou encalhados no setor imobiliário e noutros setores, não seria apropriado simplesmente ignorar a questão.

E diante de uma “recuperação em forma de K”, em que muitas famílias sobrevivem de salário em salário, enquanto alguns poucos privilegiados ficam mais ricos do que nunca, ignorar a desigualdade pode acabar sendo um erro, especialmente se ela for exacerbada pela IA.

Felizmente, o presidente do Fed não é um monarca absoluto. Warsh terá apenas um voto entre 12 no Comitê Federal de Mercado Aberto (Federal Open Market Committee – Fomc, na sigla em inglês). Embora seja primus inter pares (o primeiro entre iguais), ele não pode intimidar o comitê para que faça o que ele quer. Isso é boa notícia para os mercados, considerando-se quão equivocadas são algumas das posições declaradas por Warsh.

Além disso, dados econômicos recentes sugerem que o crescimento dos EUA permanece acima do potencial – na verdade, pode até acelerar este ano, após um período de desaceleração moderada no ano passado –, enquanto a inflação segue teimosamente acima da meta de 2% do Fed.

Portanto, mesmo o único corte de taxa que o Fomc previu para 2026 pode não se justificar. Com outros riscos iminentes – como uma guerra prolongada com o Irã, que eleva os preços do petróleo e pressiona a inflação e expectativas inflacionárias —, o Fed pode muito bem acabar aumentando taxas, em vez de reduzi-las.

Uma vez confirmado, Warsh terá em pouco tempo um choque de realidade. É improvável que as opiniões que expressou como especialista sobrevivam a um encontro com o mundo real dos mercados e da geopolítica.

Tradução por Fabrício Calado MoreiraDireitos autorais: Project Syndicate, 2026www.project-syndicate.org


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