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“Safe Hearts Plan”: uma oportunidade que Portugal não pode desperdiçar para proteger os mais vulneráveis

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23.02.2026

As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte na União Europeia, roubando 1,7 milhões de vidas todos os anos e afetando mais de 62 milhões de cidadãos, com um impacto económico que ultrapassa os 282 mil milhões de euros anuais, dos quais 47 mil milhões resultam de perdas de produtividade. Estes números não são apenas estatísticas: representam vidas encurtadas, famílias atingidas e sistemas de saúde sob enorme pressão.

Tudo indica que esta pressão aumentará. Entre 2025 e 2050, prevê-se que a prevalência das doenças cardiovasculares cresça 90% e o número de mortes aumente 73,4%, sinalizando uma tendência que não podemos ignorar. Foi precisamente para enfrentar esta ameaça crescente que a Comissão Europeia apresentou o Safe Hearts Plan, uma estratégia que coloca a prevenção no centro das políticas públicas para a saúde cardiovascular.

Mas, para que a prevenção seja eficaz, precisamos de olhar para além dos fatores de risco tradicionais, como a alimentação, o tabagismo, o consumo de álcool ou o sedentarismo. A evidência científica é clara ao demonstrar que infeções respiratórias sazonais e virais têm um impacto direto e significativo no risco de eventos cardiovasculares graves.

Entre as ferramentas mais eficazes para mitigar esse risco está a vacinação, que permanece, injustificadamente, subvalorizada no debate político europeu. Sabemos hoje que infeções como a gripe, a covid‑19, a doença pneumocócica, o herpes zoster e, de forma particularmente relevante, o vírus sincicial respiratório (VSR) aumentam o risco de enfarte agudo do miocárdio, AVC e outras complicações cardiovasculares agudas, sobretudo em pessoas com doenças crónicas e adultos mais velhos. A vacinação nestes grupos reduz hospitalizações, complicações graves e mortalidade, constituindo uma intervenção preventiva simples, custo‑efetiva e com impacto imediato.

O caso do VSR ilustra de forma exemplar esta urgência. Apesar de ser um dos agentes virais mais comuns, permanece largamente invisível na comunicação em saúde pública. No entanto, o seu impacto é inegável. Globalmente, milhões de infeções respiratórias graves são atribuídas ao VSR todos os anos e, em Portugal, os dados do consórcio europeu RESCEU mostram que este vírus é responsável por mais de 3000 hospitalizações anuais em pessoas com mais de 65 anos, representando mais de 92% das hospitalizações por VSR em adultos.

Estes números sublinham a necessidade de reconhecer o VSR como um risco real e crescente, especialmente para aqueles que já vivem com condições crónicas e cuja vulnerabilidade cardiovascular torna qualquer infeção respiratória potencialmente perigosa.

O Safe Hearts Plan oferece, assim, um enquadramento político sólido para integrar a vacinação nas estratégias europeias de proteção cardiovascular. Mas um plano só se torna transformador quando se traduz em ação. Portugal tem agora a oportunidade (e a responsabilidade...) de avançar com políticas públicas que reforcem os programas de prevenção, valorizem a vacinação como instrumento central da proteção cardiovascular, promovam a literacia em saúde e garantam que os doentes crónicos e as populações envelhecidas são vistos não como uma nota de rodapé, mas como o centro das decisões.

Se realmente queremos aliviar o peso das doenças cardiovasculares no nosso país, temos de assumir uma visão moderna e abrangente de prevenção, onde a vacinação desempenha um papel incontornável. O Safe Hearts Plan oferece a estrutura; o que falta é a vontade política para agir.

Fica a pergunta, tão simples quanto urgente: o que está Portugal disposto a fazer para responder a este desafio europeu e proteger os seus cidadãos mais vulneráveis?


© Expresso