O sermão de S. Francisco
1. Recorda Fernando Félix Lopes um episódio em que foi protagonista S. Francisco de Assis («Santo António de Lisboa - Doutor Evangélico», pag. 136-137):
– «Vem daí, Irmão, vamos pregar!» Disse S. Francisco ao companheiro, em Santa Maria dos Anjos, ao pé de Assis, puxando-lhe pela manga do hábito. E, metendo ambos ao caminho, no passo lesto de bons andarilhos que os frades eram, subindo à cidade, mãos nas mangas, a cabeça metida no capuz, olhos recolhidos em Deus, seguem por uma rua, enfiam mais por outra, saem numa praça, e, guiando Fr. Francisco de volta ao eremitério, o companheiro pergunta:
– «Então, Padre, dissestes que vínhamos pregar, e, afinal, não fizemos o sermão».
– «Não fizemos o sermão?», perguntou Fr. Francisco, e comentou: «Passarmos pelas ruas, pacíficos, humildes, o espírito absorto em Deus, irmão, foi sermão que pregámos, o sermão do bom exemplo, de mais proveito que todos os discursos que pudéssemos armar».
2. Não é por falta de sermões que a nossa sociedade anda como anda. Abundam os pregadores. Prega-se na igreja e fora dela. Na comunicação social e nas redes sociais. Nas escolas e nas ruas. No parlamento e nos comícios.
Prega-se muito, nem sempre usando a linguagem mais adequada.
Nem sempre respeitando a dignidade dos outros e o seu poder de decisão. Nem sempre servindo as pessoas mas procurando arrebanhá-las. Impondo e não propondo.
Prega-se muito, nem sempre visando o bem comum mas a satisfação de interesses pessoais ou de grupo.
Há pessoas que pregam e pessoas que se pregam. Cuja conversa não vai além de um fastidioso auto-elogio. Que aproveitam todas as oportunidades para falarem de si, apregoando tudo o que fazem e pensam fazer.
Prega-se tentando em muitos casos formatar as pessoas em vez de contribuir para a formação de cidadãos cada vez mais conscientes, mais responsáveis, mais livres.
Prega-se muito, às vezes em excesso (há pessoas que não encontram forma de terminar), nem sempre visando o ideal de Paz e Bem que movia S. Francisco de Assis.
3. Nisto de pregar há um pormenor importante: o testemunho de vida. Que muitas vezes não existe.
Escreve Miguel Torga («Diário», II volume):
«Sai-me cara esta tendência que tenho de pregador. De vez em quando, no melhor do sermão, é cada fatura, que só não abro falência por honra da firma. A última foi hoje de manhã. Eu a exaltar não sei já que virtude, e um dos caríssimos ouvintes a apresentar-me a conta calada dos meus próprios erros.
– Homem! – gritei, aflito, ao cobrador. – Pelas almas, não confunda as minhas ideias com os meus defeitos!»
4. É fácil passar receitas. Promulgar leis. Recomendar normas de comportamento.
Mas fazer leis para serem cumpridas só pelos outros… Estabelecer normas cheias de buracos por onde se escapam os amigalhaços… Pregar austeridade levando vida faustosa… Alertar para o drama da fome permitindo que diariamente se estraguem alimentos…
A mais eficaz das pregações é a vida. É o exemplo. Isto de, de cigarro aceso na mão, apregoar os malefícios do tabaco…
Uma das coisas que mais me custa é ser alertado, com verdade, para as minhas incoerências, que as tenho.
Miguel Torga acrescentava, no texto que citei:
– Senhor, quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim, que eu lhe perdoe? Será até sete vezes?»
Como é necessária a compreensão, da parte do pregador e da parte dos ouvintes!
Mas que a compreensão e a consciência dos próprios defeitos não levem o pegador a camuflar o erro: a chamar virtude ao que, de facto, o não é. Ou a silenciar o que deve ser denunciado.
