IA, Guerra e Consciência: Estamos a ultrapassar as linhas vermelhas?
Como as recentes movimentações militares e geopolíticas, a guerra e o uso da IA para fins bélicos têm suscitado grandes mudanças que, em última análise, impactam também o nosso dia a dia e fazem-nos refletir.
Se ontem todos usávamos o ChatGPT livremente e sem preocupações, hoje talvez já possamos pensar de forma diferente. Senão vejamos.
Com o recente comunicado de Dario Amodei, da Anthropic, sublinhando que há linhas intransponíveis e que, em alguns casos, podemos ter chegado a um ponto em que nem tudo é aceitável, agindo mais contra as democracias do que na sua defesa, percebemos que as preocupações dos últimos meses vêm agora à luz do dia, bem mais cedo do que prevíamos.
Em negociações com o Governo dos Estados Unidos e com o seu agora designado Departamento de Guerra, a Anthropic não aceitou duas condições: a vigilância massiva nacional dos cidadãos e armas totalmente autónomas, assumindo-as como linhas vermelhas intransponíveis. Em contrapartida, pelo menos numa primeira instância, a OpenAI parece não ter tido a mesma posição, tendo apenas ontem emitido também um comunicado em que define quais as linhas vermelhas do seu contrato, face ao êxodo de utilizadores do ChatGPT para outras soluções.
Independentemente do estado em que estas questões venham a ficar, preocupa-me cada vez mais a confiabilidade dos sistemas que usamos e a necessidade de sermos críticos relativamente às soluções que apoiamos e utilizamos.
Faz apenas um ano que o Vaticano publicou a nota “Antiqua et Nova”, onde o Papa Francisco deixou claro que “nenhuma máquina jamais deveria decidir tirar a vida de um ser humano”. O documento alertava para os riscos dos sistemas de armas autónomas e letais, capazes de identificar e atingir alvos sem intervenção humana direta, afirmando que estas tecnologias representam uma ameaça à sobrevivência da humanidade e à dignidade da pessoa, entre vários outros domínios. Alias, foi tema de artigo desta rubrica em Maio de 2025. Mas como chegámos nós até aqui em apenas um ano? Que mundo estamos a criar, ou a destruir, e o que podemos fazer perante isto?
Com a chamada nova geometria variável do mundo geopolítico, tudo ganha uma nova dimensão nos eixos dos Estados Unidos, da China e da Europa. Como sabemos, e sem falsas modéstias, a Europa continua a ser um porto seguro no que respeita à utilização idónea dos nossos dados, protegendo a privacidade e promovendo a transparência, transformando esses princípios em lei. Pode ter mais legislação e regulamentação, mas é por um bom motivo. Cabe-nos também a nós criar e explorar novas soluções, aplicações e plataformas assentes em bons princípios, pois eles são válidos para todo o mundo, e não apenas para nós.
Na verdade, a migração de soluções digitais para soluções europeias já se iniciou. Embora seja algo estrutural e até impensável há algum tempo, têm sido dados passos subtis nesse sentido. Há grandes empresas europeias já com grupos de trabalho a estudar alternativas, outras a prepará-las e outras já a utilizá-las. É um longo caminho a percorrer, talvez iniciado tardiamente, mas que não nos fará mal nenhum. Como em muitas circunstâncias na vida, por vezes falta apenas um pequeno empurrão para avançar e concretizar. Que seja este para a Europa.
A Europa, em muitos domínios, tem ficado atrás na inovação em comparação com a China ou os Estados Unidos, não por falta de capacidade ou de meios, mas talvez por falta de pragmatismo e assertividade. Mas há ainda outra receita: a valorização do que é nosso — na nossa terra, na nossa região, no nosso país ou no nosso continente.
Assim, no meio de tudo isto, que fazemos? Mantemo-nos inócuos face a estas mudanças ou equacionamos mudar e europeizar as nossas aplicações? Soluções como a https://proton.me ou https://nomadesk.com.pt entre outras, começam a ganhar protagonismo por privilegiarem a nossa segurança e proteção, sem utilizarem os nossos dados para outros fins. Talvez seja tema para um novo artigo sobre soluções que fazem destes princípios linhas verdadeiramente intransponíveis.
E, para cada um de nós, vale tudo? Em que cesto vamos depositar os nossos ovos? Que soluções de IA vamos adotar?
A tecnologia não decide por nós. Somos nós que decidimos o que a tecnologia poderá fazer. E essa responsabilidade já começou.
