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A fome como projeto de poder: o diálogo atemporal entre Josué de Castro e Carolina Maria de Jesus

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05.03.2026

Enquanto Josué de Castro, através da "Geografia da Fome", sistematiza a carência como uma patologia social derivada da estrutura colonial e latifundiária, Carolina, em "Quarto de Despejo", oferece a fenomenologia da fome sob a ótica da exclusão urbana e do racismo estrutural. A insegurança alimentar contemporânea, embora dotada de novas faces (como a obesidade por ultraprocessados), permanece como um instrumento de controle político e negligência estatal.

A fome no Brasil nunca foi um acidente de percurso ou uma fatalidade climática. Como bem pontuou Josué de Castro em meados do século XX, ela é um "produto de uma economia de exploração" (CASTRO, 1946). Quase na mesma época, Carolina Maria de Jesus escrevia, em papéis catados do lixo, que o Brasil era o "quarto de despejo" do mundo, onde a fome era a visitante mais assídua.

Em 2026, o Brasil atravessa um momento de reconstrução institucional, mas as cicatrizes desses dois autores permanecem expostas. O país, que figura como o maior produtor de grãos do planeta, ainda não resolveu o paradoxo de ter milhões de cidadãos em situação de insegurança alimentar moderada ou grave. A nutrição, portanto, não pode ser discutida apenas sob o viés bioquímico; ela é, essencialmente, uma ferramenta de soberania e justiça social.

Em sua obra seminal Geografia da Fome, Josué de Castro desafiou as elites brasileiras ao desnaturalizar a........

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