Decapitação e o fim da política
Sobretudo Israel, mas também os EUA, têm vindo a dar uma nova actualidade ao conceito de decapitação como arma de violência política. Escusado será dizer que esta arma viola todas as convenções internacionais contemporâneas sobre a guerra. A normatividade internacional que regeu o mundo com relativa eficácia depois da Segunda Guerra Mundial foi enterrada depois do 11 de Setembro de 2001, quando os altares jurídicos de Harvard proclamaram a fatwa segundo a qual era legítimo torturar os supostos inimigos para além dos limites até então estabelecidos pela doutrina dominante dos direitos humanos. A partir de então, uma vez que o inimigo seja declarado como terrorista, a destruição da sua vida deixa de ser uma questão de legitimidade e passa a ser uma questão de oportunidade e de eficácia. O terrorismo é toda a ameaça à segurança nacional que não pode ser combatida diplomaticamente, ou seja, por meios pacíficos. Ter o privilégio de nomear quem é terrorista, ou quem ameaça a segurança de quem, passou a ser o princípio da política. Tragicamente, este princípio da política é também o fim da política.
A decapitação, tanto literal (decepar a cabeça) como figurada (eliminação radical de um indivíduo que simboliza uma luta, uma organização ou uma ideia colectivas) tem uma longa tradição. Combina de uma maneira única o horror da eliminação e a orgia do triunfo, da vitória ou da vingança. Freud escreveu em 1922 que decapitar significa castrar; é o modo como o inconsciente se apresenta de modo transformado à consciência do indivíduo. A sua análise incide na mitologia da cabeça da gorgona Medusa decepada pelo semi-deus Perseu. Os líderes políticos ou outros que recorrem à decapitação manipulam essa pulsão inconsciente para transmitir a ideia de um poder sem limites (redução do inimigo à máxima impotência) e de uma eficácia igualmente sem limites (extermínio individual, que é também colectivo).
A tradição cultural da decapitação tem as suas máximas expressões na arte e na literatura. A cabeça de João Baptista é decepada a pedido da mãe de Salomé, Herodias, pelo facto de ele se ter oposto à relação incestuosa entre Herodias e Herodes. Judite, a viúva judia salva a sua cidade de Betúlia da invasão assíria ao seduzir e decapitar Holofernes, o general assírio de Nabucodonosor. Golias, o gigante filisteu fortemente armado, foi derrotado pela pedra disparada pela funda de David. Este, ao ver Golias no chão, cortou-lhe a cabeça com a própria espada do gigante. Numa variação desta tradição, Sansão, o juiz israelita todo poderoso, perdeu todo o seu poder e foi capturado pelos filisteus quando Dalila, uma filisteia infiltrada, o seduziu e lhe cortou o cabelo, depois de descobrir que o poder de Sansão residia no cabelo que ele nunca cortara.
O fascínio pela decapitação foi irresistível para os pintores da Renascença. Com o seu gosto pela violência realística, Caravaggio imortalizou muitas destas decapitações na sua pintura: Medusa em 1597, Holofernes em 1599, João Baptista em 1608 e Golias em 1609-10. Outros pintores da Renascença vincaram em quadros belíssimos o simbolismo politico-cultural da decapitação. Por exemplo, Donatello, em 1408-9, e Michelangelo, em 1508-12, imortalizaram vitória de David sobre Golias; Artemisia Gentileschi, a decapitação de Holofernes em 1612-21; Francesco Cairo, em 1625-30, a decapitação de João Baptista. Não é objectivo deste texto analisar as dimensões eróticas ou leituras psicanalíticas das decapitações ou dos pintores que as........
