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Todos os que fingem não ver são culpados. Crónica de Margarida Davim

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30.01.2026

Desço a rua em direção ao Rato. Passo, como tantas vezes, por aquele edifício cor de salmão, com a tinta a esboroar-se nas paredes, as portadas antigas de madeira gasta, o toldo azul-escuro carregado de pó que a chuva tornou lama e lhe dá um tom acinzentado. Desço a rua, como tantas vezes. Mas, desta vez, detenho-me. O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda. A mulher espancada, amarrada a uma cadeira como se estivesse num crucifixo, o homem a quem obrigaram a beijar as botas dos agentes, o que foi sodomizado com o pau de uma vassoura, os ciganos que, segundo uma testemunha, terão sido obrigados a praticar sexo oral.

A descrição destes horrores está numa acusação do Ministério Público. E a investigação foi aberta graças a uma denúncia encaminhada pela Direção Nacional da PSP. E talvez isso devesse sossegar-me. Mas não sossega. Leio nas notícias que, além dos dois detidos, há dez agentes “investigados pelas agressões de extrema violência cometidas contra detidos e pessoas vulneráveis” que continuam a trabalhar. E que os vídeos das torturas e dos abusos sexuais foram partilhados em grupos de WhatsApp com 70 participantes, acredita-se que muitos deles polícias, que recebiam as imagens com comentários jocosos e racistas.

Enquanto desço a rua, penso em Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhos, sem registo criminal, que........

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