A Europa está a fabricar a sua própria desconfiança
Em França, há uma pergunta que o Governo ainda não conseguiu responder: até onde pode pedir sacrifícios sem agravar a crise política?
A 1 de outubro, o Governo apresentou um esforço orçamental de 54 mil milhões de euros, com medidas de contenção da despesa e o congelamento do ponto de índice salarial dos funcionários públicos.
Pouco mais de duas semanas depois, as ruas deram outra medida do problema: a 17 de outubro, o Ministério do Interior contabilizou 550 mil manifestantes; os organizadores falaram em 800 mil. As estimativas divergem, mas a mobilização expõe uma questão que já não cabe apenas nas contas públicas: quem paga o ajustamento e durante quanto tempo?
A restrição orçamental é real e convém reconhecê-la. Segundo as projeções oficiais, o défice francês fechará 2026 em 5,4% do PIB e a dívida pública em 119,3%. Antes de apresentar o projeto de orçamento, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, avisara que, sem novas medidas, o défice de 2027 poderia aproximar-se de 6,5%. A 21 de outubro, a taxa das obrigações a dez anos atingiu os 5%, o valor mais alto desde 2002.
Dos 54 mil milhões de euros do esforço global, 43 mil milhões correspondem a medidas novas. O projeto de orçamento prevê reduzir o défice para 5% do PIB em 2027, mas a França continuará longe do limite de 3% estabelecido pelas regras europeias. O ajustamento promete uma redução do desequilíbrio, não o seu desaparecimento.
Um esforço com prazo de validade negocia-se. Um sacrifício sem horizonte definido limita-se a ser suportado. A diferença entre ambos é política antes de ser económica.
A mobilização não nasceu de uma tabela orçamental. Começou em setembro, num liceu de Créteil, nos arredores de Paris, por falta de professores, e alastrou a centenas de estabelecimentos, com queixas de salas sobrelotadas e instalações degradadas. Acabou por convergir com um descontentamento mais vasto contra o........
