O silêncio dos versos vivos
Dizem que Portugal é uma terra de poetas. É um lugar-comum que se repete nas escolas, nos discursos oficiais e nas capas de livros escolares. Camões, Pessoa, Sophia, Torga. Nomes gigantes, estátuas de bronze que vigiam as praças e as almas. Mas hoje, neste Dia Mundial da Poesia, proponho que olhemos para baixo, para o chão da rua, e não para o pedestal. Proponho que olhemos para os vivos.
Há uma violência silenciosa no modo como tratamos a poesia contemporânea em Portugal. Celebramos o morto com fervor nacional, mas deixamos o vivo esperar à porta, com o manuscrito debaixo do braço e o frio a entrar-lhe pelos ossos. Eu sei o que é esse frio. Bati a tantas portas. Enviei tantos e-mails. Preparei tantas embalagens com o cuidado de quem oferece um órgão para transplante, na esperança de que aquela palavra salve alguém. E o retorno veio. Veio frio, gélido. Um “não” padronizado, ou pior, o silêncio, que é a forma mais educada de indiferença.
Não escrevo esta crónica apenas como lamento pessoal........
