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Dia Internacional da Felicidade: E se a melhor fase da vida estiver guardada para depois dos 60?

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13.03.2026

Todos crescemos a ouvir que a juventude é a melhor fase da vida. É nessa etapa que acumulamos experiências, tomamos decisões importantes e imaginamos o futuro. No entanto, à medida que a esperança média de vida aumenta e as sociedades envelhecem, passa a ser cada vez mais importante questionar esta ideia tão enraizada. E se a melhor fase da vida estiver, afinal, guardada para depois dos 60?

No Dia Internacional da Felicidade, vale a pena encarar a idade com outros olhos. Para muitas pessoas, viver depois dos 60 anos é renascer, podendo representar uma nova oportunidade com mais tempo, mais liberdade e até com maior clareza sobre aquilo que realmente importa. Longe de ser apenas um período de perdas ou limitações, pode revelar-se um tempo de redescoberta, de relações significativas e de participação ativa na comunidade. Talvez a felicidade não esteja apenas na pressa dos primeiros anos, mas também na serenidade de quem já percorreu um longo caminho e continua disponível para aproveitar, aprender e partilhar.

Portugal tem uma das pirâmides geracionais mais invertidas da Europa, um cenário que se tem vindo a intensificar ao longo dos últimos anos. De acordo com o relatório “Envelhecimento na população”, do Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas (PLANAPP), a população com 65 anos ou mais, em Portugal Continental, cresce a uma velocidade média de 1,9% ao ano, enquanto a população com 14 anos ou menos diminui cerca de 1% ao ano. A manter-se esta tendência, estima-se que, em 2070, uma em cada três pessoas seja idosa, com 33,6% da população a ter uma idade superior a 65 anos.

Esta realidade tem vindo a direcionar o discurso público para os desafios do envelhecimento demográfico, nomeadamente no que diz respeito à sustentabilidade da Segurança Social, à pressão sobre os sistemas de saúde e à escassez de população ativa. Contudo, é raro haver debate em torno da oportunidade que esta realidade apresenta para repensar o lugar dos mais velhos na nossa sociedade e como a felicidade não deve ser um privilégio exclusivo da juventude. Aliás, talvez seja precisamente depois dos 65 anos que muitas pessoas encontram motivos para sorrir e para se orgulhar do caminho percorrido, reunindo, inclusive, condições para viver melhor, com mais liberdade e menos stress.

A reforma do trabalho traz consigo uma transformação profunda no dia a dia das pessoas, com horários menos rígidos, mais disponibilidade para redescobrir e explorar interesses e a possibilidade de atribuir um novo sentido à rotina do quotidiano. Depois de décadas a cumprir responsabilidades familiares e profissionais, há finalmente espaço e tempo para escolhas mais livres e autónomas. Aquilo que, para alguns, pode parecer o fim, para muitos é encarado como um recomeço.

No entanto, persistem preconceitos que prejudicam a inclusão dos seniores na sociedade. Mantém-se a ideia de que são menos produtivos, menos capazes de acompanhar as inovações, menos flexíveis e mais resistentes à mudança. Em muitos casos, assume-se, ainda, que envelhecer significa perder autonomia, direitos, dignidade, ou participação cívica, o que, infelizmente, é uma realidade para certas pessoas. Mas é preciso contrariar o estigma. A idade não tem de ser sinónimo de afastamento ou de invisibilidade social. Pelo contrário, deve reforçar a importância da presença e a participação ativa na vida da comunidade e promover a alimentação saudável, o desporto e, acima de tudo, as relações interpessoais, para que viver mais seja, igualmente, viver (cada vez) melhor.

O respeito é a base de qualquer sociedade e os idosos não podem ficar de fora. É urgente que todos – a começar nos mais jovens – contribuam para comunidades inclusivas, capazes de acolher todas as pessoas vulneráveis. A empatia, a cooperação e a disponibilidade para ajudar o próximo são princípios que se devem manter de geração em geração, promovendo o bem-estar e a qualidade de vida, sem exceção ou exclusão pela idade ou qualquer outro fator.

No mês em que se comemora a felicidade, talvez valha a pena recordar que esta emoção não tem um limite no calendário. Constrói-se ao longo da vida e transforma-se, podendo vir a revelar-se, mais tarde, com especial intensidade. Se a sociedade souber olhar para o envelhecimento não apenas como um desafio, mas também como uma oportunidade, poderá descobrir um enorme potencial humano, social e comunitário.

Valorizar a presença das pessoas mais velhas, reconhecer o seu contributo e criar condições para que continuem a participar ativamente na vida coletiva é, também, uma forma de construir sociedades mais justas, mais humanas e, certamente, mais felizes. Por isso, talvez a pergunta com que começámos mereça, afinal, uma resposta mais otimista. E se a melhor fase da vida não tiver prazo de validade e puder, de facto, começar depois dos 60?

Presidente da Direção da Pedalar Sem Idade Portugal


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