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Querido diário: sobre escrita, gênero e controle

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15.06.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Quando eu era criança, era habitual presentear as meninas com pequenos diários coloridos e perfumados, com cadeados frágeis. Isso sempre me pareceu algo mais sobre invasão de segredos do que sobre explorar o mundo interno e documentar o cotidiano.

Aqueles pequenos diários, sempre muito bonitos e sedutores, lembravam-me também os confessionários católicos. Por que me dar um espaço supostamente todo meu, para o exercício sincero de vulnerabilidades, se o segredo e o anonimato eram tão violáveis? Por que me dar um caderno para concentrar o que há de mais íntimo, quase confessional? Para entregar o conteúdo de papel passado nas mãos de qualquer um que pudesse ter acesso a este artefato?

A autoria não deixava dúvidas, já que, na primeira página, vinha logo escrito: este diário pertence a… Além de confessar na escrita, o caderno dos segredos ainda nos pedia para assinar embaixo. Por que esses diários eram sempre presenteados às meninas e nunca aos meninos? Era vigilância ou os meninos não mereciam igualmente estimular seus talentos de escrita e explorar, a partir da palavra, o seu mundo interior?

Pela discrepância entre o número de autores e autoras que vêm a ser publicados e a receber premiações literárias, certamente, os diários não chegavam para nós com o intuito de estimular a escrita de autoria feminina.

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Tirar o cotidiano da cabeça e o transcrever para o papel todos os dias? Nunca consegui manter esse hábito. Sentia-me vigiada. Um espaço de autoexpressão íntima que é ao mesmo tempo tão acessível para quem escreve e tão violável para quem está de fora é, de certa maneira, outra forma de promover o silenciamento.

Isso é também sobre consentimento. Em conversas com amigas portuguesas, soube que esse hábito também era estimulado entre as meninas deste lado do Atlântico. Uma delas segredou-me que um desses diários foi a causa de seu afastamento permanente da escrita.

Ela habituou-se a escrever nesses cadernos com pequenos cadeados e, quando chegou à adolescência, passou para o papel a narrativa de um de seus primeiros encontros com um rapaz. Descreveu o prazer que sentiu quando ele lhe apalpou as maminhas. Os pais leram às escondidas e, ao se depararem com o teor do texto e da confissão, deram-lhe uma surra que ela nunca esqueceu.

A confiabilidade do espaço de redação foi rompida. Nesse dia, sentiu-se traída não apenas por seus pais, mas pelo próprio diário, que por tantos anos fora o seu companheiro de jornada. Sentiu que traíra também a........

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