Assédios nas artes
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Ele era um dos mais importantes diretores de teatro no Brasil. Fazia sentido, então, insistir em entrevistá-lo, pois voltara a falar com jornalistas, depois de muitos anos. No teatro, após uma apresentação em que ele também estava na plateia, tomei fôlego e fui fazer-lhe o convite. Sua resposta, sorridente, foi inesperada: olhou ao lado e me perguntou quem era ela. Apresentei-lhe Patrícia, com quem sou casado e editora comigo na Antro Positivo. Então, veio a contraproposta: se ela for à minha casa sozinha, eu dou a ela a entrevista. A conversa terminou nesse exato momento. Nunca o entrevistei, apesar de outros artistas questionarem como não havia na revista uma conversa com ele. Segui, isso sim, a escrever críticas sobre suas encenações; brigamos e nos entendemos, sempre limitados às funções de artista e crítico.
Seu jeito não era exatamente novidade. Muitos sabiam, muitos até assistiram-no assediar sexualmente atrizes jovens e, moralmente, quase todo mundo durante os ensaios. Denúncias surgiam de tempos em tempos, mas ele seguiu protegido pela instituição que o abrigava, silenciosa, e, de modo incompreensível, também por diversos atores e atrizes que sofreram ou testemunharam os assédios.
Sua ruína emocional não veio com as denúncias mais enfáticas pelas redes sociais, e sim com o impacto na arte do movimento Me Too. Chegávamos a outra época. Os comportamentos abusivos passavam à exposição pública; algumas vítimas perdiam o medo de retaliações; denunciados eram cancelados e até presos. Ele, recolhido ao seu apartamento, em contato com poucos, permaneceu diante do tormento de suas memórias.
Se sentiu remorso ou culpa, não é possível saber. Dizem ter se entregado à própria melancolia e, mergulhado nela, afundado até o fim. Muitos lamentaram. Muitos intensificaram fortemente as denúncias, sem pudor. Foi um grande artista, é verdade. Assim como foi um homem horrível.
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Antes desse momento derradeiro, alguém de dentro me sugeriu entrar para sua companhia como jovem dramaturgo iniciante. Questionei sobre a prática dele gritar e humilhar as pessoas com quem trabalhava, às vezes durante horas, como ouvia por aí. Sim, ele faz isso mesmo. E eu poderei reagir, contra-argumentar? Não com ele, avisou-me. Então, comigo não dará certo, e declinei o convite.
Submeter-me ao assédio teria aberto todas as portas para um caminho que começava solto e sem suporte algum; teria sido assumido como discípulo pela instituição e, talvez, até hoje, lá estivesse; teria acesso e respeito prévio de parte da crítica especializada; teria notoriedade na ambiência artística. Aos olhos do mundo, eu cometia um erro. Aos meus, dormiria em paz.
É praticamente impossível encontrar, nas artes performativas mundo afora, quem não possua histórias de assédio próprias ou de terceiros para contar, e em muitos níveis, inclusive nos que deveriam existir para os coibir. Há pouco, uma das maiores instituições culturais brasileiras teve de lidar com a revelação de um suicídio em ambiente de trabalho, após seu funcionário sofrer excessivas e constantes pressões.
Se isso ocorre nos escritórios e departamentos, nas áreas burocráticas, dentro dos espaços de criação, a situação é ainda mais descontrolada. Tratados como exageros, os assédios não são percebidos como tal. Ameaças veladas e explícitas, toques indevidos nos corpos, convites e sugestões de intimidade, piadas e humilhações...
A lista é tão longa quanto são as perversões daqueles que utilizam o poder para infringir a ética, a moral e a lei. Um dos maiores exemplos no Brasil é uma conhecida preparadora de elenco no cinema que utiliza métodos extremamente invasivos e violentos para preparar elencos de produções importantes.
As narrativas de seus exercícios incluem agressões físicas e verbais, além de formas de humilhação entre os atores e atrizes. Hoje, com mais lucidez, sua fama não a impede de ser denunciada criminalmente, apesar de seguir em atividade, contratada por diretores, e manter seu método como treinamento.
Essa é uma combinação complexa, pois raramente a ética profissional, a moral social e a legalidade são ignoradas separadamente. O comum é o assediador atuar em mais de um dos aspectos, quando não nos três. Essa inter-relação torna-o difícil de ser nomeado. Tudo parece ser apenas práticas banais de um empregador autoritário e explorador, radicalização dos limites, mera confusão afetiva. Dissimular as coisas é fundamental para a perversidade dos assediadores e abusadores justificar o inaceitável.
Nas artes performativas, o corpo físico e mental é essencialmente o maior material de trabalho, o que torna o indivíduo vulnerável ao assédio de muitas maneiras. Ocorra ele entre pares, em nivelamento horizontal, ou entre hierarquias, vertical, os assédios precisam ser classificados como irreconciliáveis e inaceitáveis. Quaisquer considerações, ponderações e minimizações, ao fim, são tanto quanto submeter ao abuso quem o sofreu.
O tema foi abordado em Portugal, com maior objetividade, pela primeira vez nesta semana, na Universidade de Lisboa. Juntamo-nos na sala ao fundo da Faculdade de Letras — bem poderia ter sido na frente do edifício, nos jardins do campus, aberta ao mundo —, para acompanharmos a apresentação do inquérito MUDA – Assédio nas Artes em Portugal.
O projeto é idealizado e desenvolvido por Catarina Vieira, Raquel André e Sara de Castro, com equipe técnica formada pelas investigadoras em psicologia Ana Bártolo e Isabel Silva (coordenadoras do estudo científico), em sociologia Dália Costa e em direito Joana Neto.
O mapeamento inédito traz dados impressionantes, mas não inesperados: entre os 611 participantes, 75% afirmaram ter sofrido algum tipo de assédio moral e 49% de assédio sexual, revelando ainda o perigo de, entre os sexuais, 15,7% destes serem realizados por professores e formadores.
Como os assédios são naturalizados pelo sistema viciado das artes performativas, em que as relações pessoais e laborais se confundem e as reaproximações são constantes, 80% das vítimas não os denunciaram por medo de represálias profissionais e de serem desacreditadas por ausência material de provas. Provas, sabemos, quase sempre impossíveis de existir.
No próprio momento de apresentação das estatísticas, a imprensa correu para divulgá-las com outros detalhes. Leiam. E vão ao site do MUDA, e lá fiquem sem pressa. Leiam-no a partir de seus dois aspectos: informativo e enquanto gesto público. O primeiro mapeamento português sobre assédio nas artes se fez pela iniciativa de três artistas. Isso diz muito sobre como discursos são forjados posteriormente pelas instâncias públicas com oportunismo.
Recordemos o projeto, quando inscrito em um edital público, ter sido recusado pela comissão. As conversas que o iniciaram vêm de 2019, seguiram em 2021 e foram ampliadas junto à Plateia (Associação de Profissionais de Artes Cênicas) em 2022 e 2024, até assumir a forma do projeto MUDA, no ano passado.
Um ano depois, é difícil encontrar quem se coloque contrário à sua necessidade. Contudo, a iniciativa também evidencia que, a partir de um questionário online anônimo, o poder público poderia ter olhado para o assédio no setor. Provavelmente, não com a mesma penetração. Afinal, responder às instituições que viabilizam grande parte do funcionamento do setor resvalaria em maior fragilidade e desconfiança. Ainda assim, em nada diminuiria a importância de realizá-lo e iniciar, por si, essa investigação. Na prática, as instâncias públicas acabam por esquecer que, para além das normatizações e cobranças que lhes cabem, devem-nos também proteções.
O que essa equipe de mulheres (sempre as mulheres) se propôs a fazer é gigantesco. Diz respeito não apenas sobre às práticas nas artes. Expõe a necessidade de não se ter medo, de agir, de interromper a falsa normalidade dos assédios e abusos, de deixar doer para curar uma sociedade que tornara banal questões tão difíceis e graves, com seus “tanto faz”, “sempre foi assim”, “é de outra época”, “faz parte”, “não é para qualquer um”, entre outras formas enraizadas de violência.
Ao contrário, deve-se dar cada vez mais espaço para denúncias e acolhimento às vítimas. O mero desabafo, explicam as investigadoras, foi apontado, durante as entrevistas, como transformador.
O mapeamento realizado pelo projeto MUDA, mesmo que circunscrito a uma primeira ambiência específica, impõe a urgência de se assumir práticas assediadoras como gestos constantes. Expostas essas práticas, então, soluções precisam ser testadas. Esse começo é suficiente para olharmos para o MUDA como aquilo que trouxe o ambiente e as relações de trabalho nas artes performativas em Portugal para o século XXI.
Modificar o imaginário sobre o assédio laboral, no entanto, não é simples. Durante o encontro, dois aspectos foram problematizados por convidados: a atribuição de punições a companhias e artistas com comprovadas práticas de assédio ser potencialmente prejudicial aos artistas assediados, pois, retirados os apoios e financiamentos, perderiam seus trabalhos, já que, muitas vezes, essas seriam práticas comuns em grupos e personalidades com largas trajetórias.
E, ainda, o fato de as denúncias surgirem após terminadas as relações laborais, o que tornaria desimportante retornar ao problema. Os dois homens (sempre os homens), talvez não percebessem o disparate dessas reflexões. Do fundo da sala, ouço: sobra mais recurso para quem não assedia!
Exato. E esse é o contexto a ser enfrentado. Se o diretor artístico de uma companhia, por exemplo, não puder ser afastado por sua presença ser determinante à companhia, então não é absurdo que pessoa e entidade se confundam na punição, uma vez que, na prática, isso se coloca como fato. Assim como é preciso entender o quanto é difícil, durante o processo de assédio, reagir, muitas vezes percebido apenas após terminado, a partir das consequências deixadas.
Se isso atingir nomes consagrados, companhias antigas, entidades influentes, é uma pena. Pior é imaginar quantas foram as vítimas, quantas são e quantas ainda serão. Não se deve ser hipócrita e compreender o incompreensível apenas para proteger certos nomes, estruturas, histórias ou o que for.
Por fim, os acontecimentos recentes em Portugal não estavam ainda à vista para caberem no MUDA. Uma continuidade do mapa precisará incluir, infelizmente, também o assédio político que as artes passaram a sofrer. Esse, ainda que pareça ser de outro universo, mostra sua força sobre gestores e programadores, uma categoria de profissionais das artes e da cultura que, até aqui, só parecia participar se e quando praticasse formas de assédio. Porém, é preciso ser justo. Assim como nem toda pessoa em posição hierárquica assedia, vemos crescer o assédio inclusive contra os que ocupam posições de poder.
Os assédios moral e sexual dizem respeito diretamente aos indivíduos; o assédio político atua, a partir do indivíduo, sobre a democracia. Os morais e sexuais se voltam ao corpo e às liberdades de cada um. O político se refere ao corpo social e à liberdade cultural imprescindíveis ao exercício democrático.
Em todos os casos, os traumas paralisam, desorientam, provocam medo e suspendem a percepção de ser possível seguir para algo diferente. No artigo Abusadores Políticos, publicada em julho de 2025, defendi a necessidade de compreendermos essa dinâmica.
Até conseguirmos encontrar os meios para interromper essas práticas individuais, coletivas, institucionais e políticas, admiremos com ânimo e vontade o estudo disponibilizado. Para já, uma notícia das melhores: de 7 a 9 de novembro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o projeto MUDA promoverá novos debates, o lançamento de um manual de boas práticas e ações formativas.
Não há muito mais a dizer, apesar de faltar tanto, apenas há o querer dar a essas mulheres, que tanto se dedicaram a proteger a todas e todos, e que continuam a fazê-lo de forma incansável, um sincero muito obrigado público por tamanho abraço em forma de preocupação e respeito.
Hoje a indicação de leitura só pode ser uma: MUDA
