A espetacularização política do medo
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A menina loira, cabelos compridos, segura a margarida rodeada por um campo bucólico. Conta as pétalas que arranca, atrapalhando-se graciosamente na sequência dos números, repetindo o gesto ingênuo e romântico de despetalar a flor para descobrir algo, talvez um sentimento, um desejo. A criança está centralizada na imagem sem cores, e o comercial parece ser apenas isso. Até a cena congelar, o zoom passar pelas pequenas sardas desfocadas pela baixa qualidade da filmagem e chegar à sua pupila, enquanto outra voz, como que saída de um rádio ou aparelho, inverte a contagem, regressando do dez ao um. O propósito é revelado com um corte seco. A menina substituída pela explosão nuclear registrada durante um teste atômico real e o narrador que diz em off: “É isso que está em jogo. Criar um mundo no qual todos os filhos de Deus possam viver, ou mergulhar na escuridão. Ou amamos uns aos outros, ou morreremos”.
Era 1964. Daisy, o vídeo em questão, foi decisivo para o democrata Lyndon Johnson vencer as eleições norte-americanas. Veiculado na televisão uma única vez, imediatamente retirado pela própria campanha após o impacto provocado, seguiu nos telejornais como notícia, não mais como peça de marketing, aumentando o horror que provocara.
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Desde então, as estratégias de campanha, que até ali produziam peças sobretudo com discursos propositivos ou críticos com o formalismo típico dos pronunciamentos, assumiram outros aspectos, como o ataque à reputação dos adversários sem precisar nomeá-los, subtextos propositadamente confusos, subjetivos e interpretativos, fotografias cinematográficas, exploração espontânea da imprensa e manipulação do eleitor pelo medo.
Trinta e oito anos depois, os mais velhos recordar-se-ão de quando, no Brasil, Regina Duarte apareceu no programa eleitoral de José Serra para dizer: “Eu tenho medo. Faz tempo que eu não tinha esse sentimento”. O desabafo ensaiado marcou a eleição, contudo não foi suficiente para conquistar a vitória. Lula tornou-se presidente pela primeira vez, e a campanha responderia mais tarde com outra frase de efeito, “a esperança venceu o medo”.
Entre Daisy e Regina Duarte, o medo não é exatamente igual. O primeiro o busca no apocalíptico; o segundo na insegurança. Em comum, surpreendem o eleitor........
