menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Lamborghini, likes e lágrimas: o jogo é um problema de saúde pública e social

18 0
24.03.2026

Há esquemas de extorsão tão velhos como a humanidade. A novidade está na embalagem. Hoje, a ruína de quem apanha o autocarro às seis da manhã prepara‑se em varandas no Dubai e em moradias de Cascais. A investigações do canal NOW e da revista Sábado, sobre influencers alvo de queixa-crime por promoverem casinos online ilegais, não mostrou um capricho de miúdos deslumbrados, mostrou uma operação profissional de saque. Foi desenhada para espremer até ao último cêntimo quem já pouco tem.

Estes influenciadores exibem Lamborghinis e relógios que brilham mais do que a consciência. Recrutam pessoas para o abismo. Vendem a plataforma ilegal da semana como “literacia financeira”. O produto é predação. De um lado, o “empreendedor” do ecrã a facturar comissões com as perdas alheias, do outro, um pai com dois empregos a cair em dívidas. Ou uma jovem a queimar o salário mínimo num multiplicador que quase nunca chega.

No centro está a dependência. O jogo mexe com o cérebro, vive do reforço intermitente, do “quase lá”, da dopamina fácil. É por isso que a indústria é regulada. Enquanto sociedade, reconhecemos que se trata de uma questão de saúde pública. Os operadores legais têm travões que existem por uma razão: limites de depósito e de tempo, avaliação de risco, informação obrigatória, canais de apoio. E, sobretudo, auto-exclusão. Um jogador pode retirar‑se preventivamente do acesso. Nos casinos ilegais quase nada disto existe. Não há listas a funcionar. Não há auditorias independentes. Não há quem responda quando tudo corre mal. Há um funil simples: entrar, perder, repetir.

Enquanto vidas se desmoronam em directo, a justiça anda devagar. Perdemo‑nos a discutir se o servidor está em Curaçau ou nas Seicheles, como se a localização digital fosse um escudo intransponível. É absurdo. Um café de bairro fecha se o alvará não estiver em dia. Um burlão com colarinho digital consegue delapidar as poupanças de uma família no Instagram e o processo arrasta‑se anos.

Também não vale apontar o dedo só aos casinos pirata e ignorar o resto. Falamos, com razão, dos charlatões do Instagram. E a RTP? E as outras televisões? O 760 é legal e normalizado como lotaria. É de acesso muito fácil. Está ali, no comando e num telefonema. Horas de emissão a sussurrar “é agora”. Vende‑se esperança de valor acrescentado a idosos isolados e a quem chega ao fim do mês de cabeça baixa.

O que fazer? Tratar o azar como o que é: um problema de saúde pública e social. Tolerância zero à publicidade ao jogo, em todas as formas — directa ou disfarçada em podcasts, lives e reels. Reforçar as travas, impor auto-exclusão centralizada e eficaz, limites duros de gasto e tempo, alertas claros e avaliação de risco a sério. Sanções exemplares para quem contorna as regras, responsabilizar plataformas e quem lucra com tráfego deve responder por hospedar esquemas predatórios. Pôr a Polícia Judiciária no terreno. Seguir fluxos financeiros, cooperar com outros países, congelar activos, dar prioridade processual. E fazer literacia honesta. Explicar como funciona a dependência. Há tanto por fazer!

Isto não é paternalismo. Falamos de uma redução de danos num ambiente onde tecnologia, marketing e vulnerabilidade formam uma tempestade perfeita. Quando um algoritmo encontra alguém cansado, sozinho e endividado, a “oportunidade” deixa de ser uma escolha verdadeira livre, passando a ser uma armadilha sem saída.

A justiça não pode continuar a assistir. Entre a ostentação dos influenciadores e os propagadores do 760 que insiste no “tente outra vez”, há um país real a pagar a conta. Rendas em atraso. Cartões no vermelho. Lares desfeitos. Regule‑se onde é preciso; feche‑se o que não cumpre. Cale‑se a publicidade. Proteja‑se quem é vulnerável. O resto são likes. E likes não pagam a luz.


© PÚBLICO