Além deste dia 8 de março
Na azáfama de dias intensos, em constante competição com o relógio e uma lista de tarefas que insiste em crescer, habituámo-nos a viver em piloto automático. E porque não? Funciona. Pelo menos durante algum tempo… Cumprimos agendas, respondemos a expectativas e vamos fazendo frente a todos os desafios que se atropelam à nossa frente.
Companheira. Namorada. Esposa.
Profissional. Bem-sucedida.
Os papéis acumulam-se, muitas vezes sem espaço para uma escolha consciente. A questão não é se conseguimos dar resposta a todos, mas a que custo. O que fica para trás quando tudo parece urgente? Que partes de nós próprias são silenciadas, adiadas ou esquecidas?Falar de saúde mental e de bem-estar é inevitável. À primeira vista, o conceito parece simples, até quase intuitivo. Mas o que significa, afinal, “estar bem”? Será sentir-se feliz? Ter saúde? Sentir equilíbrio? Ou uma combinação de tudo isto?
Apesar de frequentemente usados como sinónimos, bem-estar e felicidade não são exatamente a mesma coisa. O bem-estar é um processo dinâmico e multidimensional, que resulta da forma como cada pessoa avalia a sua vida em função dos seus valores, necessidades e sentimentos. Tem em conta a satisfação com a vida nas suas diferentes vertentes (pessoal, profissional, relacional), a capacidade de definir objetivos de vida, exercer autonomia e sentir domínio sobre os contextos onde está inserido.
Quando olhamos para o contexto feminino, esta equação ganha ainda mais complexidade.
Já lá vai o tempo em que o casamento e a maternidade tinham um papel exclusivo para a mulher (ocidental). Paulatinamente, têm vindo a perspetivar-se novos horizontes sobre o seu papel social permitindo-lhe a conquista de novos espaços de intervenção e com isso o envolvimento em novos e diferentes papéis.
A estas mudanças somam-se exigências e pressões externas e internas que, muitas vezes, são vividas de forma cumulativa. Ao longo do ciclo de vida, a mulher atravessa várias fases hormonais (puberdade, ciclo menstrual, gravidez, pós-parto, menopausa) que influenciam o humor, a energia e a estabilidade emocional.
Não é por acaso que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres apresentam maior risco de desenvolver perturbações como ansiedade e depressão (cerca do dobro relativamente aos homens no último caso), bem como uma maior suscetibilidade ao stress. Num contexto social que valoriza o desempenho simultâneo em múltiplas áreas (sucesso profissional, estabilidade familiar e uma aparência irrepreensível), constrói-se uma expectativa implícita de disponibilidade constante e elevada capacidade de adaptação. Espera-se que a mulher seja competente, presente, emocionalmente regulada e produtiva, independentemente das circunstâncias pessoais ou das fases de vida que atravessa. Esta acumulação de exigências, muitas vezes internalizada como padrão individual, pode contribuir para níveis elevados de pressão, ansiedade, desgaste e exaustão emocional, sentimentos de culpa ou inadequação e uma sensação de insuficiência, mesmo quando os objetivos acabam por ser formalmente alcançados.
Estes dados enquadram a importância de olhar para a saúde mental da mulher de forma consistente e continuada. O bem-estar não se reduz à ausência de doença nem ao cumprimento eficaz de papéis sociais. Constrói-se na possibilidade de reorientar o sentido da vida de acordo com objetivos, metas e valores próprios, num processo contínuo de adaptação e reconstrução.
Nesse processo, o apoio psicológico pode assumir um papel relevante. Não como resposta exclusiva a uma crise, mas como ferramenta de autoconhecimento, desenvolvimento de regulação emocional e tomada de decisões mais conscientes. Um gesto de cuidado consigo própria, que passa por reconhecer limites, legitimar emoções e rever expectativas.
Talvez seja tempo de ressignificar a ideia da supermulher. Não como aquela que consegue tudo, suporta tudo e nunca falha, mas como a que se conhece, se escuta e se permite ajustar o caminho quando necessário.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
