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A IA não rouba lugares.Revela é cada vez mais incompetências

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27.02.2026

A Inteligência Artificial altera a ordem das coisas? Sim, claro. Mas não de uma forma simplista como alguns anunciam. A IA não elimina a necessidade de formação de executivos; antes pelo contrário, expõe de forma evidente quem não está preparado. E quem não está preparado está, já hoje, obsoleto. A IA revela cada vez mais as incompetências das pessoas aos vários níveis.

Há quem acredite que quando os algoritmos produzem relatórios, fazem previsões, constroem cenários e até escrevem estratégias preliminares, para além de escreverem tudo o que temos para escrever e formatar, a formação de executivos se torna redundante e desnecessária. Para quê, perguntam os mais ingénuos? Trata-se de um perigoso equívoco. A IA automatiza tarefas, acelera análises, amplia capacidades. Porém, não substitui a componente julgamento, a responsabilidade, a decisão sob incerteza, a leitura política, social, tecnológica, legal, entre outras, dos contextos, a liderança das equipas ou a construção de um sentido para tudo. Se há coisa complexa é precisamente a integração de tudo debaixo de uma nova ordem de coisas e num mundo de heurísticas e de humanos.

A verdadeira alteração da ordem das coisas está noutra dimensão: no foco da formação. O foco desloca-se face à formação convencional. Antes, ensinávamos essencialmente frameworks, modelos, matrizes, técnicas, aplicando muito. Hoje, esses instrumentos estão a um prompt de distância. Mas não a sua aplicação criteriosa. Ou seja, se o valor já não está apenas em saber aplicar uma SWOT, uma análise de Porter ou um business canvas model então está em saber questionar os pressupostos, interpretar os resultados, integrar as variáveis humanas, éticas e organizacionais que nenhum modelo, por melhor que seja, captura plenamente. Dando-lhe um toque humano e podendo, precisamente com a liberdade humana, alterar a ordem das coisas sem obedecer cegamente aos outputs de um algoritmo. Se todos o fizerem provavelmente acabarão todos no mesmo sítio. Estrategicamente neutros porque estrategicamente similares.

Num contexto de IA, a formação de executivos torna-se, assim, muito mais exigente, nunca menos exigente. Obriga a literacia tecnológica suficiente para compreender limites, enviesamentos, riscos, alucinações. Requer capacidade crítica para não confundir probabilidade com verdade. Impõe visão estratégica, oh se impõe, para decidir onde usar IA e onde não usar IA. E exige liderança para gerir equipas híbridas, onde humanos e sistemas inteligentes devem coexistir.

Sem formação robusta, exponencia-se o risco de forma óbvia: os executivos são  transformados em meros operadores de ferramentas e estão dependentes de outputs que não sabem escrutinar. Pior, trabalham com frameworks, modelos, matrizes, formulações e raciocínios que não conhecem e não sabem utilizar. Aparentemente são mais produtivos. Estrategicamente são de uma fragilidade como nunca se viu. A IA amplifica competências. Isso parece óbvio. Partindo do princípio de que elas existem. Porém, também amplifica, e não é pouco, incompetências e desconhecimentos.

Assim, a formação de executivos não deve competir com a IA; deve estar embebida nela. Integrar IA nos programas, utilizá-la como instrumento pedagógico, testar decisões em ambientes simulados, analisar dados reais com apoio algorítmico. E algo que se teima muitas vezes em não fazer: pensar. Pensar, pensar, pensar. Pensamento crítico. Tem de haver um reforço daquilo que a IA não entrega: pensamento crítico, ética, capacidade de decisão sob ambiguidade, coragem estratégica. Visão estratégica.

Paradoxalmente, quanto mais sofisticada for a tecnologia, mais sofisticada tem de ser a liderança. E por isso precisamos de lideranças adaptadas às circunstâncias, ao contexto dos dias que correm. A IA altera por completo a ordem das ferramentas. Mas não altera, nem pode alterar, a responsabilidade última de decidir. E essa responsabilidade continua a exigir formação, reflexão, autonomia, maturidade.

Com a inteligência artificial, a ignorância estratégica torna-se mais visível e mais cara. É preciso colocar os nossos participantes a trabalhar lado a lado com ela, reforçando a sua visão estratégica, a sua decisão, a sua autonomia. A formação de executivos não é um extra curricular. É, na presença de IA, uma condição de absoluta sobrevivência. Faça-se formação de executivos usando muita IA.

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