Um Presidente e o epitáfio do esquerdismo
1 Afinal, nem tudo é assim tão mau
Consumada a segunda volta das Eleições Presidenciais de 2026, é tempo de retornar à exegese política.
Comecemos pelo mais óbvio e indesmentível: António José Seguro é o novo Presidente da República, tendo alcançado um resultado eleitoral muito expressivo e abrangente, que não deixa qualquer tipo de dúvidas sobre a opção preferencial dos portugueses a respeito do mais alto magistrado da Nação.
Ainda no a posteriori do mais recente período eleitoral, algumas ilações poderão retirar-se dos respetivos resultados.
Para o efeito, procuraremos sintetizar as referidas ilações na seguinte hipótese: segundo entendemos, a eleição de António José Seguro é, ao contrário do que poderia parecer, o pior resultado possível para a esquerda radical e identitária que ainda persiste no espetro político-partidário português, em especial orbitando em torno de partidos como o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português (PCP) e, ainda que com algumas nuances, o próprio Livre e a ala mais extremada do Partido Socialista (PS).
Por facilidade de discurso, que não descura a inspiração remota no léxico leninista, aludiremos a este conjunto de protagonistas como os representantes do esquerdismo português – em traços largos e necessariamente abreviados, pautado por uma conceção rígida de intervenção estadual, grande hostilidade à primazia da iniciativa económica privada ou ainda, noutro plano, a preferência por modelos de tributação agravada do fator capital, nas suas múltiplas manifestações.
É justamente a este nível, e nos termos da hipótese que serve de mote ao presente artigo, que entendemos que a eleição de António José Seguro poderá relevar-se a condição essencial para a perda do último fôlego que resta aos mais proeminentes representantes do esquerdismo português – muito mais, note-se, do que sucederia com uma hipotética vitória de André Ventura.
2 Um Presidente moderado perante o atual pêndulo ideológico
Conforme o próprio já o afirmou, é expectável que António José Seguro paute a parte mais substancial do seu primeiro mandato por um registo de aversão a radicalismos e, bem assim, a políticas de fação – justamente o que alimenta e suscita fonte de poder para os adeptos do esquerdismo mais efervescente, a este nível, com particular destaque para Bloco de Esquerda e PCP.
Com um Presidente da República particularmente comprometido com a estabilidade governativa e institucional, e um perfil de moderação acentuado, os referidos partidos poderão encontrar um obstáculo intransponível às respetivas derivas fraturantes.
Mesmo no caso do PS – que continua a experienciar uma grave crise de identidade – a vitória eleitoral de um militante e ex-secretário geral não poderá ser ignorada, inclusive pelos seus conhecidos detratores internos. E aqui reside, novamente segundo entendemos, um particular calcanhar de Aquiles para todo o esquerdismo: o partido mais relevante e representativo da esquerda política nacional é justamente aquele de que provém o Presidente da República eleito e, mesmo considerando a existência de um número significativo de detratores internos à persona de António José Seguro, dificilmente o PS encetará uma posição de efetivo contraste ou combate ao Presidente eleito.
Assim, com a sua preferência pela moderação e um reforço da componente institucional – a que inevitavelmente um PS, cada vez mais fragilizado, tenderá a aderir (ainda que por via da inércia) – Seguro poderá retirar a réstia de oxigénio aos demais partidos à esquerda, que continuam a sobreviver do conflito e da rutura e, cada vez mais, dependem do impulso aglutinador do PS.
Neste momento, e com inteira legitimidade, poderá o leitor interrogar-se: a suceder de tal modo, não poderá igualmente antever-se um impacto negativo para o Chega (?)
Tal não poderá descartar-se, considerando o estilo particularmente truculento da ação política do partido liderado por André Ventura, porventura menos conseguida na convivência com um Presidente da República com semelhante perfil.
Todavia, a atual expressão eleitoral do Chega – e, goste-se ou não, o reforço de posição de poder de André Ventura – coloca o referido partido numa posição diametralmente oposta à de Bloco de Esquerda, PCP, Livre e, ainda que de forma menos acentuada, do próprio PS.
E assim sucede, sobretudo, quando está por demonstrar que o Chega tenha atingido o respetivo pico de votação, com especial reflexo em sede de eleições legislativas. Ou seja, um partido que possua uma forte expressão de base votante terá uma capacidade muito maior de encetar posições de confronto face a um Presidente da República como António José Seguro – não sendo de excluir que parte das narrativas criadas por André Ventura, na campanha eleitoral para as Presidenciais, tenha sido a antecâmara desse movimento.
3 Um Epitáfio satisfatório
Atualmente, afigura-se-nos claro que os modelos oferecidos pela esquerda tradicional e pelos herdeiros do esquerdismo foram irreversivelmente abandonados, em prol da adesão a discursos mais polarizados e conexos a fenómenos como a imigração, a crise na habitação ou a própria segurança.
Nessa medida, que coincide com o início de mandato do nosso Presidente da República, a esquerda radical tornou-se um anacronismo num país (e uma Europa) que clama por ordem, pragmatismo e, acima de tudo, estabilidade.
A esse mesmo nível, muito mais do que sucederia com uma putativa eleição de André Ventura – que facilmente serviria de catalisador para uma união da esquerda em torno de um qualquer “antifascismo” de circunstância – a eleição de António José Seguro preconiza um verdadeiro Epitáfio para o esquerdismo.
Ao contrário do que a votação da segunda volta das Eleições Presidenciais poderia fazer antever, o perfil de António José Seguro não é a ponte para o regresso da esquerda radical ao poder ou tão pouco um qualquer balão de oxigénio para o PS. Será, ao que cremos, o muro onde se desfaz a maioria dos ingredientes que alimenta a importância, cada vez mais residual, dos representantes do esquerdismo.
Com a AD e o Chega a redesenharem o mapa do poder e a disputarem cada vez mais um eleitorado transversal, poderá ser o Presidente António José Seguro a assinar a nota de rodapé de um espetro ideológico que o Portugal real já não reconhece como seu.
Sendo o caso, os adeptos de um outro Portugal, o comprometido com um modelo de sociedade aberta, de cunho liberal e ocidental, encontram na mais recente eleição presidencial um primeiro (e muito relevante) motivo de rejubilo.
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