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A saúde das coisas invisíveis

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18.05.2026

Ela chegou alguns minutos antes.

Percebi porque eu também havia chegado antes. Não por virtude, devo confessar. Apenas calculei mal o trânsito, essa entidade que às vezes nos pune e às vezes nos concede uma sobra de tempo.

Ela cumprimentou a recepcionista pelo nome. Sinal de que já estivera ali outras vezes ou de que pertencia a esse grupo raro de pessoas que ainda repara em quem as atende. Sentou-se perto da janela. A bolsa ficou ao lado, bem acomodada na cadeira vizinha, com a dignidade de um pequeno animal doméstico.

Não os folheou de imediato. Deixou o envelope sobre o colo, preso sob uma das mãos. A outra segurava o celular, que vibrava de vez em quando. Chegou uma mensagem. Ela leu, sorriu quase nada e não respondeu.

Gostei dela por isso.

Há elegâncias que começam no atraso de uma resposta. Às vezes, no canto da boca.

A sala era clara, fresca, cheirava levemente a café e álcool. Uma televisão sem som mostrava uma praia perfeita demais para ser desejável. Um homem falava baixo ao telefone, como se estivesse resolvendo a economia do país. Talvez estivesse apenas falando com o contador. Nunca se sabe. Uma senhora procurava os óculos dentro da bolsa com aquela paciência irritada de quem já conhece o pequeno desaparecimento.

A mulher perto da janela respirou fundo.

Foi uma respiração mais longa. Só isso. Um desses movimentos discretos que fazemos quando precisamos caber de novo no próprio corpo sem transformar a cena em acontecimento.

O médico a chamaria em alguns minutos. Talvez perguntasse do sono, da pressão, da alimentação, dos filhos, dos remédios, das dores sem data precisa. Um bom médico sabe que o exame não entra sozinho no consultório. Entra com a pessoa. E pessoa, como se sabe, vem sempre com anexos.

Ainda assim, há coisas que só aparecem depois.

Às vezes, no elevador. Às vezes, no carro. Às vezes, no banheiro de casa, quando a pessoa tira os brincos, lava o rosto e percebe que passou o dia inteiro sendo razoável.

Não falo dos grandes sofrimentos. Estes, quando chegam, tomam a casa, mudam os móveis de lugar, obrigam a família a falar baixo. Falo de outra espécie de desgaste, mais social, mais bem-educado. O de manter a voz agradável quando se queria apenas........

© O Mirante