A química no Salão Oval
O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, ocorrido na Casa Branca, talvez tenha produzido algo maior do que acordos preliminares sobre tarifas, comércio ou cooperação econômica. Produziu uma imagem política rara em tempos de diplomacia convertida em espetáculo permanente: a de um Brasil que voltou a falar sem constrangimento — e, sobretudo, voltou a ser ouvido sem precisar pedir licença.
Há poucos anos, seria difícil imaginar uma conversa de quase três horas entre dois líderes tão diferentes politicamente, cercados por ministros e assessores discutindo comércio exterior, crime organizado, minerais estratégicos e reposicionamento geopolítico. Menos provável ainda seria imaginar o Brasil chegando à Casa Branca sem aquele antigo ar defensivo que tantas vezes marcou parte da relação latino-americana com Washington.
E talvez o primeiro sinal dessa mudança tenha ocorrido antes mesmo de qualquer conversa começar.
Lula foi recebido pela entrada principal da Casa Branca, com direito a tapete vermelho e honras protocolares reservadas a poucos líderes estrangeiros no atual governo americano. Em Washington, detalhes assim nunca são decorativos. Donald Trump entende símbolos de poder como poucos dirigentes contemporâneos.
Nos últimos meses, aliados históricos dos Estados Unidos receberam tratamento muito mais frio. A própria primeira-ministra do Japão, segundo relatos amplamente comentados nos bastidores diplomáticos, demonstrou desconforto após ter sido conduzida por uma entrada lateral da Casa Branca, longe do cerimonial principal.
Pode parecer detalhe menor para quem observa de fora. Não é. Na diplomacia das grandes potências, portas de entrada também funcionam como linguagem política.
Trump reservou o tratamento pleno de chefe de Estado para pouquíssimos líderes. Entre eles, integrantes da família real britânica, o rei saudita e Vladimir Putin. Lula entrar pela porta principal significou mais do que cordialidade. Foi uma mensagem.
E havia outro detalhe impossível de ignorar: os dois líderes sorriam o tempo inteiro. Talvez até um pouco em excesso. Não........
