Os profissionais da indignação e a arte de não resolver nada
A morte de Fernando Mamede reacendeu, como tantas outras antes, o ritual previsível do espaço público: homenagens sentidas, palavras certas, diagnósticos corretos e indignações recicladas. Durante alguns dias voltou a falar-se de esquecimento, de saúde mental, de falhas estruturais no desporto. E, como quase sempre acontece, a intensidade da comoção foi inversamente proporcional à capacidade de produzir mudança.
Não se trata apenas de Fernando Mamede. Trata-se do que invariavelmente acontece quando um nome maior desaparece: o país olha-se ao espelho por breves instantes, reconhece falhas antigas e regressa rapidamente ao conforto do costume. É neste contexto que emerge um tipo de protagonista recorrente no espaço público — não o cidadão comum, nem a indignação espontânea de quem observa de fora, mas figuras que falam a partir de dentro.
Falamos de quem teve palco, mandato, acesso e legitimidade institucional. De quem circulou por conselhos, federações, associações, gabinetes, comissões e painéis de especialistas, precisamente nos domínios mais estruturantes para o desenvolvimento desportivo: integridade, carreiras duais, transição e pós-carreira, boa governação, ética e transparência. Temas repetidos até à exaustão e adiados com igual persistência.
Este protagonista não é o oportunista óbvio nem o cínico declarado. É mais sofisticado. Apresenta-se como consciência crítica, como voz precoce, como alguém que «avisou antes de ser moda». Faz questão de sublinhar que esteve lá quando ninguém estava, que falou quando ninguém........
