Perdoai-lhes, São “Nossos”
Recentemente, num daqueles exercícios de descompressão sintética a que o X nos obriga, escrevi uma frase que me parece resumir a tragédia do nosso modelo de desenvolvimento: “Os países mais avançados não o são porque têm elites perfeitas, mas porque elevaram o nível do cidadão comum. O verdadeiro patriotismo consiste em aumentar a qualidade da média, não em fazer da mediocridade uma identidade.”
Num país normal, isto seria uma lapalissada de economia política. Em Portugal, ainda e infelizmente, soa a provocação. E soa a provocação porque contraria frontalmente a narrativa dominante produzida e consumida por um ecossistema endogâmico de comentadores, políticos e avençados do sistema que transformou a exceção à regra e o facilitismo institucional numa espécie de modo de vida português.
Na passada semana, escrevi sobre o “Abominável Homem das Neves”, essa figura que habita na penumbra das instituições, avessa à transparência, que sobrevive no frio da irresponsabilidade e se alimenta do silêncio dos seus pares. Esse homem das neves não é um acidente histórico; é o produto direto de um sistema que recusa medir-se pelos padrões da excelência e da exigência. E é ele que hoje nos quer convencer de que a boa gestão, o rigor escrupuloso e o cumprimento intransigente das regras são questiúnculas de somenos, meras picardias burocráticas impostas por almas insensíveis.
Assegura-se assim aquilo que designo como a banalização da “ilegalidade do bem”. É a ideia profundamente........
