O IAG saiu da corrida à TAP e entrou na corrida contra a TAP
Diz-se por aí, com um entusiasmo aljubarrotiano, que a saída do grupo IAG do processo de reprivatização minoritária da TAP afastou, de vez, o fantasma da transferência do hub de Lisboa para Madrid. Convinha começar por explicar um paradoxo: esse fantasma já existe e, ao mesmo tempo, nunca existiu nesta corrida.
Para quem quer ir do Porto ou de Faro para destinos sem voos diretos, como Washington ou Fortaleza, a escala nalgum lugar é obrigatória – se é Lisboa, Madrid ou Paris é uma escolha pessoal; o mesmo acontece para quem quer viajar de Lisboa para a Cidade do México ou Tóquio, destinos sem voos diretos da Portela e em que Madrid é apenas mais uma opção como tantas outras. Acontece que Madrid – seja pela proximidade, pela lógica ou pela enorme capacidade aérea disponível – surge bem posicionada como ponto de escala/hub para os portugueses... assim como Espanha surge como um enorme destino final dos passageiros de longo curso da TAP que trocam de avião em Lisboa e seguem para os 8 a 11 destinos (consoante a estação do ano) que opera para o país vizinho.
O interesse do IAG na TAP não era o de continuar a ser um de muitos pontos de escala possíveis para o tráfego de e para Portugal – isso é o que já acontece agora; o interessa era, sim, o de se tornar na melhor opção de voos diretos e indiretos de e para Portugal. Num grupo aéreo internacional, com várias companhias aéreas e múltiplos hubs, a lógica nunca é nem nunca será a de “fechar Lisboa e abrir Madrid”. Isso é pura conversa de café, não é estratégia de aviação porque os hubs especializam-se; complementam-se e alimentam-se em sintonia.
Traduzindo para as padeiras de Aljubarrota soltas por aí: a decisão do IAG de desistir da aquisição da TAP nesta fase não vinculativa não significa que “Madrid tenha desistido de Lisboa”; Madrid decidiu competir (e arrasar) com Lisboa. E aqui entra o detalhe que parece ter escapado a alguns comentadores mais apressados: ao aceder ao data room da privatização, em janeiro deste ano, o IAG teve acesso ao que de mais sensível existe numa companhia aérea, como dados operacionais, rentabilidade por rota, estruturas de custo, performance comercial, fragilidades escondidas atrás de comunicados otimistas, no fundo, tudo o que de mais secreto havia no famoso computador de Frederico Pinheiro.
Se o IAG não quer comprar a TAP, agora sabe exatamente que partes vale a pena atacar e como o fazer. E já está a fazê-lo, nomeadamente com um enorme aumento da sua operação para o Brasil, porque a Iberia tem tudo o que é preciso para competir com a TAP: um hub robusto em Madrid, uma frota camaleónica e um grupo acionista sem constrangimentos políticos ou eleitorais a travar decisões.
A TAP – com ou sem novo acionista – vai continuar mergulhada em processos formais longos, sujeitos a calendários políticos, pareceres sucessivos e decisões de diversas autoridades da concorrência que têm uma característica curiosa: não têm pressa, mas têm sempre exigências que se traduzem em concessões. Na prática, são cedências de ativos, rotas ou slots – precisamente aqueles que tornam o negócio interessante – em nome de um equilíbrio concorrencial que, ironicamente, pode acabar por beneficiar quem ficou de fora do processo, leia-se o IAG. Veja-se o exemplo do eixo transatlântico: o grupo IAG, através da sua parceira American Airlines, está hoje subrepresentado em Portugal com um único voo diário entre Lisboa e Filadélfia. Num cenário de maior concentração e reforço de posição dominante da TAP em combinação com qualquer outro grupo, não será difícil antecipar o argumento de que é preciso “equilibrar” o mercado e a American Airlines será chamada a fazê-lo com amplo conhecimento de causa.
Enquanto uns discutem a TAP em abstrato, o IAG já está a preparar a concorrência em concreto, sem anúncios, sem conferências de imprensa enganosas e sem necessidade de aprovação governamental. E, sobretudo, sem estar preso a um processo que, entre intenções não vinculativas, avaliações sucessivas e decisões adiadas, corre o risco de anestesiar tudo e todos – menos quem está de fora deste processo.
Quando alguém com a dimensão, experiência e frieza estratégica do IAG olha para dentro da TAP, fecha a pasta e sai nesta fase não vinculativa, não é porque deixou de estar interessado. É porque, com a informação que tem, fez as contas e, em vez de comprar, decidiu competir. Não quiseram Madrid como parceiro?! Agora lidem com Madrid como concorrente...e, acreditem, que vai sair bem mais caro.
