Berlim, a capital sem hub
Berlim é, de forma consistente, a cidade mais visitada da Alemanha por estrangeiros. Uma capital cosmopolita, carregada de história, cultura e uma vida noturna que continua a ser referência global.
No pódio das preferências seguem-se Munique e Hamburgo - cidades economicamente mais robustas, mais organizadas e com um tecido económico mais alemão no sentido clássico do termo. E, no entanto, é Berlim que lidera no turismo ainda que essa liderança não aconteça de um ponto de vista aeronáutico: o aeroporto de Berlim-Brandenburgo (BER) movimentou cerca de 26 milhões de passageiros em 2025, o que o situa apenas como terceiro maior aeroporto da Alemanha, bem atrás dos 70 milhões de Frankfurt e 43 milhões de Munique.
Na verdade, Berlim não é sequer um hub e grande parte das suas ligações são asseguradas por companhias de baixo custo. A Lufthansa, símbolo máximo da aviação alemã, praticamente ignora a capital, limitando-se a operar voos diretos para duas cidades apenas – Frankfurt e Munique – delegando o restante serviço para várias cidades europeias, incluindo Lisboa, Porto e Faro, na sua subsidiária Eurowings, especializada no chamado tráfego local ou de ponto a ponto, isto é, sem envolver a complexa lógica de hub e de assistência a passageiros de conexão.
Com exceção dos voos para o Médio Oriente que estão neste momento suspensos, os únicos voos intercontinentais anuais que existem resumem-se a Pequim e Newark; as restantes ligações – para Montreal, Toronto ou Nova Iorque-JFK – existem apenas no verão e não são sequer operadas por companhias alemãs.
O resto do mundo está à distância de uma escala obrigatória e, apesar de tudo isto, é Berlim – e não Frankfurt, nem Munique – que recebe cerca de 14 milhões de turistas internacionais por ano, o valor mais elevado para uma cidade alemã, aos quais se somam ainda os turistas alemães.
Acresce ainda que, para além de não ser hub, Berlim também não tem um bom clima, não é propriamente reconhecida pela gastronomia, não é “barata” e não beneficia da pujança económica de Munique, Hamburgo ou Frankfurt. E mesmo assim, ganha no turismo!
Será este apenas mais um dos exemplos que desmonta algumas narrativas simplistas e propagandísticas sobre aviação e turismo? A ideia de que a existência de um hub ou de uma companhia aérea de bandeira dominante é condição necessária para o sucesso turístico não resiste ao caso de Berlim e de tantos outros casos. Pelo contrário: Berlim prova que a procura pode existir de forma orgânica, sustentada por outros fatores estruturais e bem mais relevantes – cultura, identidade, relevância histórica, dinâmica urbana – independentemente do clima e da arquitetura do transporte aéreo.
É por isso particularmente irónico que seja precisamente em Berlim que o CAPA – Centre for Aviation organize esta semana o seu “Airline Leader Summit” sob o tema Companhias Aéreas em Transição: uma cidade sem hub, com poucos voos de longo curso e sem companhia de bandeira a receber a elite mundial da aviação para discutir o futuro do setor.
É ponto assente que se falará muito sobre o “agora”: a crise no espaço aéreo do Médio Oriente, o aumento do preço do jet fuel e a alegada escassez de combustível na Europa. Mas seria interessante ir mais longe e ver, por exemplo, o governo português, enquanto acionista de uma companhia aérea, tentar apresentar neste palco a sua visão de política pública para a aviação e transmitir esta ideia persistente de que Portugal – Lisboa, Porto, Algarve, Ilhas – ficaria sem turistas e sem conetividade sem a TAP e que o país depende estruturalmente de uma companhia aérea específica para existir enquanto destino.
Não só Berlim desmontaria essa tese com uma elegância quase cruel, como também os profissionais do setor trucidariam esta narrativa. Talvez seja por isso que esse tipo de discurso sobre a aviação fique reservado aos parlamentos nacional e regional, aos ciclos eleitorais, aos momentos de exaltação patriótica imperialista…e ao caderno de encargos da reprivatização minoritária da TAP. Porque fora desse contexto – num palco global e numa cidade como Berlim – essa versão não teria a menor hipótese de levantar voo.
