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A NATO tornou-se uma ficção e a União Europeia uma cultura a abater

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16.02.2026

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A Conferência, (MSC) é mais um daqueles fóruns internacionais – neste participaram 50 países– que tratam dum tema específico, basicamente para não decidir nada, ou tomar decisões que não se concretizam. Normalmente produzem conclusões que são finostrabalhos de engenharia diplomática, em que boas intenções são expressas sem assumir compromissos. Os mais famosos são as Cimeiras Climáticas (COP), mas há-os sobre agricultura, energia nuclear, desenvolvimento, direitos humanos, etc. Esta é sobreSegurança, entendida como uma ordem internacional baseada em regras.

As palavras de Wolfgang Ischinger, Presidente desta MSC, demonstram melhor do que eu o que estamos a tratar: “A Conferência 2026 servirá mais uma vez como uma plataforma dediálogo global sobre assuntos chave de segurança internacional. As conversações preparatórias em Washington e na Arábia Saudita já proporcionaram impulsos valiosos. Ao construir sobre estas fundações, a MSC irá oferecer uma ocasião única para aprofundardiscussões estratégicas e reforçar a cooperação necessária para os desafios globais mais urgentes.”Já perceberam? Mas, verdade seja dita, se as MSC não resolvem nada, têm o mérito de mostrar, frente a frente, o que pensam os poderes deste mundo – de quem gostam e de quem não gostam.

Assim, na MSC de 2025, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, deu uma descompostura à Europa pela decadência dos “valores compartilhados”, desorganização na Defesa e incapacidade de resolver o problema da Ucrânia. Ironicamente (talvez cinicamente seja o adjectivo mais apropriado) afirmou: “Enquanto o Governo Trump está muito preocupado com a segurança europeia e acredita que podemos chegar a um acordo entre a Rússia e a Ucrânia, também acreditamos que é importante que nos próximos anos a Europa dê grandes passos para construir a sua defesa. A ameaça à Europa que me preocupa mais não é a Rússia, nem a China, nem qualquer outro factor externo. O que me preocupa mais é a ameaça interna, o recuo da Europa em alguns dos seus valores fundamentais”.

É preciso ter lata para acusar a Europa de recuar nos seus valores fundamentais (liberdade de expressão, representatividade dos governos) numa altura em que os Estados Unidos estãoprecisamente a fazer o contrário – abdicar da democracia, a caminho de uma autocracia cada vez mais violenta.

O discurso de Vance foi o começo oficial da deterioração do relacionamento transatlântico, marcado por um confronto económico e ideológico, desprezo e insulto. A retórica agressiva de Vance merece mais uma transcrição: “Tudo, desde a nossa política para a Ucrânia como a censura digital é em nome da defesa da democracia, mas quando vemos tribunais europeus a cancelar eleições e altos dirigentes a ameaçar com o cancelamento de outras, devemos perguntar se nós estamos a manter um padrão de qualidade. E digo “nós” porque acredito que, fundamentalmente, estamos na mesma equipa. Devemos fazer mais do que falar emvalores democráticos. Temos de os viver.”Portanto, os Estados Unidos, que estão num processo acelerado de destruição da democracia deles, veem dizer-nos que nós, europeus, é que estamos a desmantelar a democracia...

Adiante. Este ano os norte-americanos fizeram-se representar por Pete Hegseth, Ministro da Defesa, e Marco Rubio, Ministro dos Negócios estrangeiros. Desta vez o tom foi menos agressivo, mas igualmente ofensivo. Rubio disse que “o velho mundo acabou – aquele em que eu cresci – e vivemos numa nova era geopolítica que nos vai obrigar a todos a perceber como será e qual o nosso papel nela.”

Os norte-americanos apresentam-se como uns grandes ideólogos da unidade ocidental e democracia, enquanto Trump quer ocupar a Gronelândia, um aliado da NATO, e sempre que lhe apetece faz troça dos europeus. No Forúm Económico de Davos, o Presidente Macron classificou esta situação como “o momento Gronelândia”, o momento em que “caiu a ficha” sobre o que é a amizade EUA/Europa. Depois de Davos os políticos europeus deixaram de acreditar no retorno à antiga relação transatlântica. “A ordem internacional baseada em certas regras já não existe”, disse o Chanceler alemão Friedrich Merz agora, em Munique. “A liderança global dos Estados Unidos foi desafiada e possivelmente destruída”, acrescentou.

Alguns americanos, como o Subsecretário da Defesa, Elbridge Colby, continuam a afirmar que a NATO é indispensável, mas lembram sempre que a Europa precisa de participar mais – no caso de Colby, sugeriu uma despesa de 3,5% do PIB em defesa para 2035, enquanto afirmava que a NATO está “em transição”. O Chanceler alemão respondeu-lhe indirectamente, ao reconhecer, num discurso duro, que há uma fissura nas relações trans-atlânticas e ainda fez uma lista das políticas de Trump que se afastam cada vez mais dos valores europeus que noutros tempos acreditavam serem comuns aos dois lados do Atlântico, como a oposição aos “discursos de ódio”, a luta contra as mudanças climáticas e o apoio ao comércio livre. (Aliás, Trump acaba de retirar a luta contra as alterações climáticas de todos os organismos federais. Para o Governo dos EUA, as alterações climáticas são uma invenção das esquerdas.)

E o que dizer do que disse Mark Rutte, o Secretário Geral da NATO? Basicamente, e talvez para manter o emprego, o holandês jurou que a Aliança continua viva, é apenas necessário que os países europeus contribuam com mais. Ou seja, a NATO não está moribunda ou “em transição”, apenas precisa de afinar certos pontos. Nenhum outro dirigente europeu compartilha esta opinião. A ideia geral é de que a NATO só existe no papel e que, caso fossenecessário acioná-la, os norte-americanos recusariam. Não foi Trump que disse que a Russia podia invadir quem quisesse que ele não se opunha?

Depois de ler incontáveis (e longos!) discursos feitos em Davos, e nas MSC de 2025 e 2026, acho que a situação pode ser resumida assim: os norte-americanos de Trump não estão interessados numa guerra para defender a Europa. A EU hoje não pode defender-se de nada, porque não tem poder militar visível. Tê-lo-á em 2035 ou 2030? Não, não terá. Está atrasada em todos os fatores necessários para uma guerra; não tem equipamentos, não tem soldados e não tem uma coordenação inteligente de como obtê-los em tempo útil. Os equipamentos fabricados pelos países europeus (e Grã-Bretanha) não são compatíveis uns com os outros.

Montar um exército custa caro, leva anos, e é preciso homens que queiram lutar. Enquanto não lutam, precisam de ser alimentados, alojados e treinados, com dinheiro que terá inevitavelmente de ser retirado da saúde, da cultura, de “luxos” que ninguém quer perder. Um Governo que imponha medidas sérias neste sentido perderá as eleições, com certeza.

Já li em vários tratados teóricos e relatos históricos que há um nome para esta situação: decadência. É muito agradável viver num período de decadência, sem dúvida. Mas a decadência é, por definição, uma situação moribunda. Talvez se possa adaptar aquele slogan de outros tempos: “Decadência, Loucura, Morte.”

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