O corpo antes da palavra: migração, gesto e política do pertencimento
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Entrei no número 150 da Rua dos Fanqueiros, em Lisboa, como quem atravessa mais que uma porta. O edifício, na Baixa Pombalina, erguida entre o final do século XVIII e o início do XIX, mantém as fachadas regulares, o pé-direito alto, os tetos restaurados e a proporção clássica que organizou a cidade após o terremoto. Há ali uma ideia de ordem, de racionalidade urbana, de reconstrução estratégica do espaço.
No primeiro piso, a sala ampla revestida por um linóleo branco parecia suspensa no tempo. O eco devolvia cada respiração. Sob o branco liso, o assoalho antigo estalava discretamente, como se lembrasse que há sempre uma camada anterior sustentando o presente. Ao fundo, a música surgia quase invisível anunciando a chegada da primavera. Foi ali que compreendi que o silêncio não é ausência — é estrutura. E que ocupar aquele espaço era também ocupar a história que o construiu.
Aprendi a habitar o mundo pela palavra, pela lógica. Como imigrante, aprendi ainda a calibrar a linguagem, a observar códigos, a medir presença. Mas no workshop conduzido por Christina Elias, artista e coreógrafa brasileira radicada em Lisboa, a convocação era outra: sustentar o gesto antes do discurso.
Formada em ballet clássico, graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Royal Central School of Speech and Drama, Christina construiu uma trajetória que atravessa Brasil e Europa, com projetos apresentados em instituições como o MAXXI, em Roma, e trabalhos recentes como Performance Infinita 2 (NowHere, Lisboa, 2025) e Maquiagem (Casa Caus na Silenthome, Lisboa, 2025). Influenciada por pensadoras como Judith Butler, sua pesquisa dedica-se ao corpo como campo político — lugar onde normas se repetem, mas também onde podem ser deslocadas.
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O primeiro impacto foi o deslocamento. Minha respiração parecia alta demais naquela sala. Cada micro movimento ganhava dimensão. O eco ampliava a consciência do peso dos meus próprios hábitos corporais — a contenção dos ombros, o controle do abdômen, a disciplina herdada.
O linóleo branco deslizava sob os pés, mas eu sentia a densidade do chão antigo sob ele. Entre a música — Where is my mind?, The Blue Note, volume 1 — quase sussurrada no piano e o estalo do assoalho, percebi que meu corpo também carregava camadas: formação racional, deslocamento geográfico, expectativa de pertencimento. A libertação não veio de executar corretamente um movimento, mas de abandonar a necessidade de acertar. Parei de tentar a performance da integração e comecei a experimentá-la.
A migração costuma ser discutida em termos jurídicos e econômicos — e essas dimensões são fundamentais. Mas existe uma camada invisível e decisiva: a reinvenção sensível do espaço comum. O que significa ocupar um lugar com o próprio corpo? O que significa ser estrangeiro e, ao mesmo tempo, participante ativo da cultura que se atravessa?
Naquela sala da Baixa, construída no contexto de uma cidade que organizou rotas coloniais e fluxos globais, eu não estava como visitante provisório nem como herdeiro passivo de uma história. Estava como presença. E presença é sempre política.
Não escolhemos as estruturas históricas que nos antecedem, nem as normas que moldam nossos corpos. Mas escolhemos como habitá-las. Ao colocar meu corpo à disposição — da música, do silêncio, da palavra que agora o descreve — compreendi que pertencimento não é assimilação, mas ação. Somar culturas não é apagar diferenças; é transformá-las em campo comum. Integrar-se é assumir responsabilidade pelo espaço que se ocupa.
Talvez seja isso que esteja em jogo quando falamos de pertencimento. Não escolhemos as estruturas históricas que nos precedem, nem as normas que moldam nossos corpos. Mas, como lembrou Jean-Paul Sartre, “o importante não é o que fazem de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”. Sob aquele teto antigo, compreendi que integrar-se é justamente isso: agir sobre o que nos foi dado.
