Toda a ternura do Mundo
Já tanto se escreveu sobre si desde que nos deixou, querido António. Na missa de corpo presente o seu neto José Maria leu um texto maravilhoso sobre as suas últimas horas neste Mundo, durante as quais esteve à sua cabeceira de mão dada consigo à espera do derradeiro suspiro. Eu sabia que estava doente, já há alguns anos que desistira de lhe telefonar, pois todos aqueles que lhe foram relativamente próximos conhecem a sua relutância em pegar nesse objeto inoportuno que teima em interromper-nos daquilo que estamos a fazer, mesmo que pareça não estarmos a fazer nada. Estamos sempre, porque o problema do escritor é estar sempre a cogitar. Só aqueles que têm o nosso ofício silencioso e solitário sabem o que é a chatice de nos arrancarem do nosso infinito universo particular para voltar ao mundo do aqui e agora, das contas por pagar, da campainha que toca com o senhor da bilha de gás à porta, das bananas na fruteira que gritam por ser comidas com queijo ou em panquecas antes que amadureçam demais, da vida como ela é para os outros, e que para nós é sempre um bocadinho diferente.
Já tanto se escreveu sobre si, querido António, porque o português é mesmo assim, esquece os vivos e enaltece os mortos. Hesitei em fazê-lo, mas o apelo foi mais forte.
Ando exausta do lixo do Mundo que está cada vez mais à tona: vacinas que matam, milionários e governantes que violam adolescentes e crianças, governos religiosos fanáticos que mantêm reféns milhões de cidadãos e que os atingem à queima-roupa se forem para a rua gritar por liberdade. Estamos a viver o Mundo das Trevas em tecnicolor, um inferno a céu aberto, e, contudo, a exposição do horror parece não levar ninguém à justiça. Esta semana Teerão ficou coberta de um fumo espesso depois de ataques a depósitos e refinarias por forças americanas e israelitas, mas a neve ajudou a limpar o ar. Uns são contra esta guerra porque violou os princípios do direito internacional e outros são a favor, porque a República Islâmica viola os direitos fundamentais dos cidadãos iranianos desde 1979. O sofrimento alheio apodera-se da cabeça de um escritor e obriga-o a maturar sobre a miséria humana, impossível de justificar.
Sempre que tenho saudades suas, vou matá-las nos seus livros. Na missa, reparei num rapaz que estava sentado atrás de mim com a primeira edição do seu romance "As naus". Não era para se chamar assim, mas o António disse numa entrevista que o título do seu próximo romance seria "O regresso das caravelas" e alguma alminha invejosa roubou-lhe a ideia e registou-a. Tinha um olhar triste, era parecido consigo quando era novo, no tempo em que foi para a guerra. A mesma guerra nunca deixou de viver dentro de todas as suas células, porque as guerras dão cabo do Mundo enquanto duram, e depois dão cabo daqueles que as viveram.
Foi há vinte e cinco anos que alguém nos apresentou e ficámos amigos. O monstro consagrado e a aprendiza de feiticeira gostavam de ir almoçar a uma garagem perdida nos Moinhos da Funcheira, algures atrás da Amadora, onde a cozinheira roliça e beijoqueira vinha à mesa abraçá-lo e nos servia salsichas com couve-lombarda só para nós. Questionávamos porque é que as pessoas dizem carpete em vez de tapete e cortinados em vez de cortinas, vivenda em vez de casa e também porque é que os bebés fazem meses até aos três anos.
O menino tem 22 mesinhos, a bicicleta é servida?
Sempre me chamou bicicleta, achávamos os dois graça àquela parvoíce. Lembro-me de darmos a mão no carro, um gesto que nos parecia apenas natural, sinal e selo de uma amizade em que a ternura falava acima de tudo. Agora, dou uma mão à outra e aperto-as com força. Ninguém quer saber da solidão dos escritores.
