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Liberdade de escolha

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Vinte e quatro anos corresponde ao período, até à data, referente à obrigatoriedade da obra "Memorial de Convento" de José Saramago no programa de Português do 12.° ano, o mais longo em que um livro foi obrigatório. E eis que múltiplas vozes se exaltaram com a mera possibilidade de a obra perder tal estatuto, como se de um crime de lesa-majestade se tratasse.

A pergunta que me ocorre fazer é: porque é que tinha de ser obrigatória? Porque criou um estilo inovador de escrita, abdicando em plena consciência de travessões, inovando na utilização do ponto final e da vírgula, aos quais chamava pomposamente sinais de pausa, para aproximar a palavra escrita ao discurso oral? Em primeiro lugar, parece-me arriscado do ponto de vista pedagógico que a aprendizagem de uma língua se faça através de um estilo tão disruptivo. Para sabermos como desmanchar, primeiro temos de saber como construir. Palavras escritas em maiúscula depois de vírgulas não seguem as regras básicas da pontuação. E em segundo lugar, António Lobo Antunes também brincou com a pontuação com grande mestria, tanto nos romances como nas crónicas, tal como Dinis Machado em "O que diz Molero".

Ou porque foi o único escritor português a vencer o Prémio Nobel da Literatura? Entendo o fascínio pelas ideias originais e pela habilidade em reinventar o romance histórico. A sua obra é surpreendente e consistente, virada para o coletivo, retratando o homem enquanto ser universal, permitindo a qualquer um a tão desejada dimensão de herói. Todos lhe reconhecemos a genialidade em partir de um pressuposto inverosímil para construir uma realidade paralela que nos enreda e prende a ponto de nos fazer esquecer acerca da sua impossibilidade. É o que acontece em "Ensaio sobre a cegueira" ou em "Jangada de pedra". E depois cabe a cada leitor o livre arbítrio de apreciar ou não o seu estilo.

Pertenço à geração que, entre José Saramago e António Lobo Antunes, defendia com paixão e fervor o "seu" grande escritor, numa disputa com laivos clubísticos que obedece ao sacramental princípio da exclusão, porque quem é do Benfica jamais será do Sporting e vice-versa. E o "meu" sempre foi o António, por questões afetivas e de afinidade literária. Poucos escritores me suscitaram tanta comoção. Talvez Dostoievski, que me atirou para um vale de lágrimas aos 15 anos, quando terminei de madrugada "Noites brancas". Mas o António conseguia ir mais fundo, as suas frases ficavam a dançar na memória como fadas e duendes endiabrados, guardiões de emoções que se colavam às células, e esse tipo de "frisson" nunca senti ao ler Saramago.

Voltando ao tema da crónica, a sugestão de não obrigatoriedade da obra vem contemplada no documento "As aprendizagens essenciais de Português", revistas em consulta pública até ao dia 28 de abril. O documento acrescenta a opção de escolha, deixada ao critério dos professores, da obra "Um deus passeando pela brisa da tarde", de Mário de Carvalho, e inclui "Amor de perdição", de Camilo Castelo Branco, um dos mais virtuosos e profícuos artífices do nosso idioma. Ou seja, o que o Ministério da Educação propõe é alargar a liberdade de escolha dos professores, e esse sentido de liberdade expresso deita por terra uma polémica sem sentido.

Lembrando obras de leitura obrigatória, já conheci inúmeros leitores que descobriram a magia da literatura através do romance "Aparição", de Vergílio Ferreira. Os primeiros livros que nos tocam a alma são fundamentais não apenas para moldar o nosso gosto literário, como para a forma como aprendemos a olhar para os outros e para o Mundo. Não é justo nem correto cristalizar nenhum tipo de obrigatoriedade focada em apenas um autor, perante um universo tão vasto e rico de grandes escritores que constituem o nosso património literário. Tenho cada vez menos paciência para manifestações de tirania ideológica em nome de um pretenso moralismo de superioridade intelectual.


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