menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

“Estrelas Além do Tempo”

20 0
09.03.2026

No dia 8 de março celebrou?se o Dia Internacional da Mulher. No dia 14 assinala?se o Dia Internacional da Matemática. Entre elas cabe uma história pouco contada: a das mulheres que, através da matemática, ajudaram a construir a tecnologia moderna. O Dia Internacional da Matemática convida?nos a refletir sobre as pessoas que, ao longo da história, moldaram o pensamento matemático. Entre elas contam?se muitas mu- lheres cuja inteligência, rigor e criatividade contribuíram de forma decisiva para a construção do mundo em que hoje vivemos. Parte dos sistemas de que dependemos – desde a exploração espacial até às redes digitais – foi marcada pelo trabalho de mulheres, cujo contributo nem sempre recebeu o devido reconhecimento. No século XIX, a matemática ganhou uma nova dimensão: deixou de ser apenas uma linguagem abstrata para se tornar algo que uma máquina pudesse executar. Tudo começou com a filha do poeta Lord Byron. Ao estudar a Máquina Analítica de Charles Babbage, Ada Lovelace (1815–1852) compreen- deu que aquela máquina poderia ir muito além do cálculo numérico, poderia manipular símbolos e executar sequências lógicas de instruções. Ada escreveu um algoritmo para calcular números de Bernoulli, antecipando, assim, o potencial da computação moderna. Hoje é considerada a primeira programadora da história. A consciência do alcance das suas ideias revela?se nas suas palavras: «Esse meu cérebro é algo mais do que simplesmente mortal; o tempo o demonstrará.» Ou seja, Lovelace acreditava que o seu trabalho estava à frente da sua época e que as gerações futuras reconheceriam a sua importância para a ciência da computação. No século XX, Grace Hopper (1906–1992) aprofundou a relação entre o pensamento matemático e a máquina. Em 1934, tornou?se a primeira mulher a doutorar?se em Matemática na Universidade de Yale. Em 1952, foi pioneira na criação de um dos primeiros compiladores, o A?0, que permitia traduzir instruções matemáticas em linguagem de máquina – um passo essencial para o desenvolvimento das linguagens de programação modernas. Hopper acreditava que os computadores se tornariam ferramentas acessíveis a todos, e não apenas a especialistas. A sua postura inovadora condensa?se numa frase célebre: «A frase mais perigosa da língua é: sempre fizemos assim.» Em paralelo, Hedy Lamarr (1914–2000), atriz e inventora, desenvolveu, com George Antheil, uma técnica de salto de frequência para comunicações militares seguras – princípio que está na base de tecnologias como o Wi?Fi, o Bluetooth e o GPS. A sua visão criativa resume?se numa afirmação simples: «Todas as pessoas criativas querem fazer o inesperado.» A inovação nasce precisamente da recusa do convencional, da curiosidade e da ousadia. Na NASA, várias mulheres transformaram equações em trajetórias. Dorothy Vaughan (1910–2008) liderou a transição dos cálculos manuais para a programação em FORTRAN (linguagem de programação), garantindo que as matemáticas sob a sua coordenação dominassem a nova era dos computadores. Perante a discriminação racial e de género que enfrentou, afirmou: «Mudei o que pude; o que não pude mudar, suportei.» Katherine Johnson (1918–2020) calculou, com precisão extraordinária, trajetórias orbitais e janelas de lançamento fundamentais para as missões Mercury e Apollo. Durante anos, os seus cálculos eram considerados a validação final antes de qualquer lançamento tripulado. A sua ética de trabalho resume?se numa convicção simples: «Gosta do que fazes e farás sempre o teu melhor.» Mary W. Jackson (1921–2005), por seu lado, destacou?se na engenharia aeroespacial e na defesa da igualdade de oportunidades na instituição. Foi a primeira engenheira negra da NASA, com contribuições técnicas cruciais em aerodinâmica. Analisou dados de voos em túneis de vento supersónicos, fundamentais para o desenvolvimento de naves espaciais e aeronaves, e lutou pela inclusão das mulheres na engenharia e pela igualdade de oportunidades. É conhecido o seu desabafo sobre a discriminação sistémica: «Sempre que temos oportunidade de ficar à frente, eles mudam a linha de chegada.» A história destas três mulheres foi imortalizada no livro e no filme “Estrelas Além do Tempo” (título no Brasil; título original ‘Hidden Figures’). Em 2020, a NASA anunciou que a sua sede em Washington, D.C., passaria a chamar?se Mary W. Jackson NASA Headquarters, em sua homenagem. Annie Easley (1933–2011) desenvolveu algoritmos aplicados a sistemas energéticos e de propulsão, contribuindo para projetos ligados ao foguetão Centaur e para estudos sobre conversão de energia que influenciaram tecnologias posteriores. Consciente das barreiras que enfrentou enquanto mulher afro?americana, recordava: «Nada foi dado às minorias ou às mulheres. Foi preciso lutar pela igualdade de oportunidades – e ainda é preciso. Não desistam.» Durante a corrida espacial, Margaret Hamilton (n. 1936) coordenou o desenvolvimento do software de bordo do Apollo 11. O rigor estrutural do seu código foi determinante para evitar falhas críticas durante a alunagem, contribuindo também para afirmar o conceito de engenharia de software como disciplina científica. Ao recordar esse período, afirmou: «Olhando para trás, fomos as pessoas mais sortudas do mundo. Não havia alternativa senão ser pioneiros; não havia tempo para ser principiantes.» Nos primórdios da computação pessoal, Mary Allen Wilkes (n. 1937) participou no desenvolvimento do LINC (Laboratory INstrument Computer), um precursor do computador pessoal. Em 1965, Wilkes levou um LINC para casa, tornando?se a primeira pessoa conhecida a utilizar um computador em ambiente doméstico. Com humor, recordava: «Tínhamos a convicção ingénua de que o software deveria estar completamente livre de erros. Infelizmente, essa ideia nunca chegou a vingar.» Na Europa, Alice Recoque (1929–2021) destacou?se no desenvolvimento de minicomputadores, liderando a criação da série Mitra 15 e demonstrando que a computação podia ser compacta sem perder capacidade. Nos anos 80, antecipou a importância da inteligência artificial, liderando o desenvolvimento da linguagem KOOL para representação de conhecimento. O reconhecimento do seu legado ganhou nova forma quando a União Europeia atribuiu o seu nome a um supercomputador de exaescala, o “Alice Recoque”, integrando a nova geração de máquinas de alto desempenho. Todas estas mulheres, em épocas e contextos distintos, partilharam a mesma convicção: a matemática não é apenas cálculo – é transformação. Das equações escritas à mão às redes digitais que sustentam a nossa vida quotidiana, foram muitas vezes mulheres as arquitetas silenciosas do progresso. Talvez por isso faça sentido que março celebre, quase lado a lado, as mulheres e a matemática. Estrelas além do tempo. Mulheres para quem o impossível não era nada, muito menos um obstáculo. Não desistam.

Deixa o teu comentário

Adelina Caravana: A mulher que fez da arte o futuro de Braga

Monte do Picoto - A cruz que ilumina a memória de um povo

Subscrever NEWSLETTER

Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos.


© Correio do Minho