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“Da enxada às marchas populares ”

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15.06.2026

O que nos resta quando deixamos de ser necessários? Recentemente, numa das minhas visitas ao ginásio, encontrei-me com um simpático senhor que por lá mantém a boa forma. Por entre exercícios e conversa, muito mais conversa do que treino, para ser honesto, encontrei em parte resposta a esta pergunta. Contei-lhe que andava a pensar instalar um sistema de rega automática para aliviar o esforço diário da minha sogra na manutenção do seu quintal e jardim. Ele sorriu e respondeu-me com uma calma profunda, quase serena, que «isso seria a morte do artista, tirar-lhe aquilo que ainda faz e de que gosta». Falou disso sem dramatismo, mas com uma convicção tranquila que me ficou a moer os neurónios até hoje. Fez questão de sublinhar que tem um espaço com inúmeras árvores e que cuidar delas é o seu quotidiano mais essencial. Jurou-me que é ali, entre a rega e a enxada, que ainda se sente vivo, útil e, acima de tudo, parte de algo que lhe dá significado. Desde esse dia tenho pensado muito naquelas palavras e no valor da palavra «utilidade». Vivemos tempos em procuramos tudo o que seja mais cómodo e automático. Mas nem tudo o que nos........

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