Porque será que tantas vezes ouvimos que a nossa geração “não veste a camisola” como as anteriores? Será que não nos preocupamos com os outros? Será que a evolução nos torna progressivamente mais egocêntricos? Pensei muito bem antes de escrever este texto. E foi um artigo recentemente publicado que desbloqueou a sua escrita: os jovens, na procura de emprego, começam a valorizar o tempo livre (e o respeito pelo mesmo), lia-se. Senti-me imediatamente validado e confiante para tecer algumas considerações sobre este tema.

Não podemos questionar a dedicação e devoção dos profissionais. A recente pandemia provou-nos. O cenário era mau, todos (desde os profissionais de saúde até aos agentes de segurança) deram o seu melhor. E lá fora fomos elogiados: dos países que melhor resposta demos na emergência de Saúde Pública. Mas então o que nos poderá ser ainda exigido? Tempo. Este é o bem mais precioso que nos exigem recorrentemente. Em todos os sectores, em todos os ramos do mercado profissional, temos amigos/colegas que dizem que fazem/fizeram horas-extra ou então que trabalham horas a fio em casa, depois de terminar o dia de trabalho. E dizem-no com a maior das naturalidades.

Tornou-se, de certa forma, habitual. O trabalho suplementar banalizou-se. A mais recente polémica nos Serviços de Urgência. Compreende-se que eles só existem porque há um número de horas suplementares obrigatórias por lei, que praticamente todos os médicos cumprem (e ultrapassam). Quando eles disseram que se recusavam a fazer mais, o resultado foi simples: começaram as urgências a encerrar.

Temos um pilar fundamental do atendimento a utentes completamente dependente de trabalho suplementar. Contudo, em todas as histórias há mudanças de rumo. E penso que estamos perante uma: os profissionais mais jovens percebem que o tempo livre é um importante determinante da sua saúde. E agora optam por preservá-lo.

A reação dos superiores, provavelmente habituados ao mindset de gerações anteriores, é muitas vezes uma: “desilude-me como não tens espírito de missão” ou “esse não é mesmo o espírito da nossa empresa, que deceção”. A todos esses altos quadros ou figuras de poder, é importante que percebam: o nosso trabalho é importante, define-nos. Faremos o nosso melhor, de acordo com as nossas possibilidades. Não nos importamos daquele extra para cumprir o prazo. Mas o trabalho extra, por norma, não aceitaremos.

“Não queres horas extra? Ainda bem que és rico.” Já ouvi este comentário ao longo da minha carreira. A riqueza é um valor subjetivo. Grande parte de nós mede em euros ou dólares, mas um grupo crescente de jovens começa a medir em qualidade de vida, descanso e tempo para a família. E por isso, quando me disseram aquelas palavras, respondi prontamente: “Não sou rico, mas a minha saúde mental vale mais do que qualquer euro”. Não obtive resposta. Mas ficou a garantia de que as prioridades se encontravam alinhadas. E ainda hoje estão (penso!).

O tempo livre é o bem mais valioso das próximas décadas. As sociedades modernas começam agora a perceber que só um trabalhador motivado, estimulado e com tempo para as suas atividades de lazer poderá apresentar rendimento. A sobrecarga de horas e a banalização das mesmas só conduzem a um desfecho (trágico): burnout, ansiedade e desmotivação. Três ingredientes para um funcionário não-produtivo. Não se critiquem as gerações anteriores. Aprendemos tudo (ou quase tudo) com elas. Aceitemos apenas que na evolução da história das sociedades, as prioridades e os pensamentos foram mudando e levaram-nos até onde estamos hoje. Elas tiveram de passar por enormes provações e conseguiram trazer-nos a bom porto.

Acontece que os desafios mudaram, as soluções do antigamente já não dão resposta e temos que nos adaptar. Acima de tudo, temos que nos salvaguardar e estimar. O mundo evoluiu numa velocidade estonteante nos últimos anos. Passamos de ter telemóveis gigantes que precisavam de malas para serem carregados até mecanismos de Inteligência Artificial que nos planeiam as férias todas. A velocidade com que vivemos aumentou. Não conseguimos absorver todos os estímulos que se nos deparam desde manhã até nos deitarmos. A incapacidade de gerir todo este manancial de dados, mais as novas exigências (profissionais, habitação), fizeram ressurgir um novo item, tornando-o valioso: o tempo. Não nos acenem com salários, carreiras ou cargos. Acenem-nos com tempo. E a nossa geração responderá.

QOSHE - A nova geração de egoístas - Bruno Castro
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A nova geração de egoístas

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01.02.2024

Porque será que tantas vezes ouvimos que a nossa geração “não veste a camisola” como as anteriores? Será que não nos preocupamos com os outros? Será que a evolução nos torna progressivamente mais egocêntricos? Pensei muito bem antes de escrever este texto. E foi um artigo recentemente publicado que desbloqueou a sua escrita: os jovens, na procura de emprego, começam a valorizar o tempo livre (e o respeito pelo mesmo), lia-se. Senti-me imediatamente validado e confiante para tecer algumas considerações sobre este tema.

Não podemos questionar a dedicação e devoção dos profissionais. A recente pandemia provou-nos. O cenário era mau, todos (desde os profissionais de saúde até aos agentes de segurança) deram o seu melhor. E lá fora fomos elogiados: dos países que melhor resposta demos na emergência de Saúde Pública. Mas então o que nos poderá ser ainda exigido? Tempo. Este é o bem mais precioso que nos exigem recorrentemente. Em todos os sectores, em todos os ramos do mercado profissional, temos amigos/colegas que dizem que fazem/fizeram horas-extra ou então que trabalham horas a fio em casa, depois de terminar o........

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