Se a direita portuguesa não é a mais estúpida do mundo, é pelo menos a mais ingénua. Nos 50 anos do 25 de Abril conseguiu a mais expressiva vitória sobre a esquerda da história da democracia e, no lugar de a aproveitar, ameaça enredar-se na mais estapafúrdia armadilha desde a Geringonça: a tese dos 3 blocos, polvilhada com ajustes de contas. Mas já lá vamos. Primeiro, alguns esclarecimentos. Não é um “não é não”; eram dois e agora são três: “não é não” ao Chega no Governo; “não é não” ao Partido Socialista; e “não é não” à tese dos 3 blocos.

Vejamos, para já, um pouco mais detalhadamente a tese do primeiro “não é não” no quadro da distribuição de poder actual. Não sem antes, perdoar-me-ão, fazer um esclarecimento pessoal, que eu sei que não vos interessa nada, mas que é essencial para perceber certas posições que, deturpadas ao longo do tempo, assumiram formas estranhas às intenções originais: escrevo estas linhas a partir do duplo conforto de ter subscrito o manifesto A Clareza Que Defendemos, no Público, há 4 anos, e de ter escrito aqui, há 4 meses, um artigo com o título Luís, acha mesmo que é melhor do que o Passos Coelho para o que aí vem?. Disse conforto, porque repetiria cada palavra escrita, e porque partindo dessas posições, me sinto, agora, muito à-vontade para dizer o que se segue.

O “não é não” ao Chega, que defendi embrionariamente no A Clareza Que Defendemos e mais recentemente em plena campanha eleitoral, significa que a direita clássica não é a mesma coisa que a direita populista, que essas diferenças devem ser compreendidas, e que essa compreensão impede a amálgama – leia-se: confusão, embrulhada e miscelânea. Dito isto, do ponto de vista da relação da direita clássica (PPD e CDS) com o Chega, pragmaticamente o “não é não” aplica-se nos dois primeiros níveis de relacionamento face ao poder: (i) a participação do Chega no governo e (ii) o estabelecimento de um pacto formal de governo. Em ambos os níveis, “não é não”. Aliás, Luís Montenegro foi, depois do massacre a que foi sujeito, e antes de si Rui Rio, com a obstinada fixação com o Chega, absolutamente claro: “Eu nunca farei um acordo político de governação com o Chega”.

Agora, depois disto, considerar que tal impede a AD de (iii) negociar medidas e conversar no Parlamento com o Chega é uma loucura com tal cunho antidemocrático, que só é razoável na mente de quem considera natural uma coligação do PS com partidos extremistas e saudosistas de ditaduras e quer condicionar a direita no exercício democrático do poder.

E isto, e não só, porque teríamos que somar aqui o rasto de degradação das instituições, de empobrecimento colectivo e de destruição do estado social, resultado dos 22 nos últimos 30 anos e dos últimos 9 anos de governação socialista, leva-nos ao segundo “não é não”: a viabilização de qualquer governo socialista ou a escolha do PS como parceiro negocial preferencial.

Entre o tom e o teor do Chega, que na maior parte das vezes também repudio, os moralistas condicionadores da direita vão rasgando vestes e rangendo dentes a cada novo tiktok de Ventura. Mas ao passo que eu deixei claro que não há amálgama entre a velha direita clássica e a nova direita populista, o novo PS não hesitou em fazer a Geringonça com a velha esquerda extremista.

Se, no plano das ideias, a Geringonça não fosse por si só merecedora de grave censura – apesar de vários inomináveis nunca vi o Chega defender abertamente autocracias nem a levantar adversativas sobre ditaduras, que é coisa que, entre a ex-URSS, a Coreia do Norte e as “revoluções bolivarianas”, do PCP e do BE não se pode dizer o mesmo –, no plano da forma também não há salvação para o PS.

Façamos um exercício revelador da hipocrisia: imaginem que alguém, em reacção à afirmação pública de um político da sua homossexualidade, respondia: "E quando revelar que gosta de uma certa casa de Bruxelas onde se pratica bondage e S&M? A onda de chicotadas vai inundar as redes?" Imaginem que alguém, referindo-se a um deputado eleito, o tratava por “o banha-da-cobra”. Imaginem que alguém, ministro, em pleno Parlamento punha os dedos indicadores em riste junto à testa para chamar boi a um deputado, e que anos depois era acusado de envolvimento num esquema de corrupção. Imaginem que alguém, ante a bárbara invasão da Ucrânia pela Rússia, dizia qualquer coisa do tipo “a Ucrânia pôs-se a jeito”, e que de caminho defendia a saída de Portugal da NATO. Se esta sucessão de eventos fosse da responsabilidade de alguém de direita, toda a gente em coro gritaria: homofóbico, ordinário, labrego, corrupto e putinista anti-democrata. Teriam razão.

Dá-se o caso destas idiotices e ignomínias terem sido proferidas, por ordem, por José Magalhães, Ana Gomes, Manuel Pinho (todos do PS e nenhum deles figura menor desse universo) e pelo PCP e inicialmente pelo Bloco de Esquerda (parceiros do PS na Geringonça e companheiros do bloco da esquerda nesta nova tese dos 3 blocos).

E, por falar na tese dos 3 blocos, eis-nos chegados ao terceiro “não é não”: a rejeição da tese nos termos em que no-la querem vender.

Segundo os ideólogos da tese dos 3 blocos, a democracia portuguesa, agora, está dividida em 3: o bloco da esquerda (com o PS, a extrema-esquerda, a esquerda populista e outras coisas pós-modernas), o bloco da direita (com o PPD, o CDS e a IL) e o bloco dos “deploráveis” com quem ninguém pode falar (o Chega). André Ventura, claro, agradece, enquanto caminha para se tornar Primeiro-ministro indigitado dentro em breve. O que choca não é o atrevimento de quem se lembrou disto, o que choca é a complacência ou, no melhor cenário, a passividade de parte da direita. Admitir que a extrema-esquerda é palatável e parte da solução democrática e que a direita populista tem lepra é a obscenidade que o eleitorado repudiou inequivocamente no dia 10 de Março. Se há lições a tirar das eleições, esta é a primeira.

[Faço aqui um parêntesis: há uma variante a esta tese, do José Miguel Júdice, que não assenta exactamente nestes pressupostos, e que tornaria o PPD no partido charneira do regime, mas cuja precocidade e optimismo não partilho. Mas não é sobre esta versão que me pronuncio aqui.]

A segunda lição tem a ver com o resultado eleitoral do Chega: podemos discordar do que o partido representa, mas não podemos ignorar as razões que levaram tantos portugueses a entregar-lhes o voto. E estas razões passam, desde logo, pela saturação ante o actual estado estagnado – para dizer o mínimo – das coisas e o desespero por uma mudança visível no estilo e no conteúdo da gestão da coisa pública.

Quando em 2015, o Partido Socialista, perdedor das eleições com menos 250 mil votos (teve 1.747.685) que a coligação PPD/CDS (que teve 2.005.111), se juntou a BE (550.892), PCP (445.980), e PAN (75.140), as vozes que legitimaram a inédita manobra de tomada de poder reclamaram a força do eleitorado que “esmagadoramente” quis recusar um Governo de direita. Hoje, são os mesmos que repudiam os mais de 1.100.000 eleitores do Chega, ignorando que estes, os 312.064 da IL e os mais de 1.800.000 da AD clamaram por mudança e rejeitaram o Governo das esquerdas.

Certo é que o Chega não ganhou as eleições, e a AD, que as venceu, pelo seu líder, assumiu um compromisso com o eleitorado que não governaria com o Chega. Querer forçar, agora, Luís Montenegro a dar o dito por não dito é promover a degradação da actividade política, para depois, à primeira oportunidade, virem dizer que são todos iguais e mentirosos nessa equivalência.

Todavia, com a expressiva votação que obteve, o Chega ganhou o direito, não à “prova de governo”, mas à “prova da responsabilidade”. Por exemplo, durante a campanha, para explicar o financiamento do aumento de pensões que propôs, e que custaria 9 mil milhões de euros por ano, argumentou que tal se pagaria com os 20 mil milhões de euros que nos custa a inflação. É o mesmo que querer pagar a um credor com uma mala vazia dizendo que lá dentro está dinheiro que ninguém vê. Na verdade, mais do que o direito à “prova da responsabilidade”, o Chega deve ser mesmo forçado à “prova da responsabilidade”: dizendo o que faria, como o faria e como o pagaria.

Só a obrigação da responsabilidade pode extinguir o fogo-fátuo do populismo. De entre as inanidades ditas e do indecoroso exibido, o Chega tem, relativamente a boa parte dos seus congéneres europeus, um desagravo: é anti-putinista e pró-Ucrânia (apesar da excitação inicial mal controlada do embaixador Tânger Corrêa). Dizer isto é dizer que, por exemplo, por cá, tem uma posição mais aceitável, democrática e ocidental do que PCP ou BE.

O Chega ainda pode ser salvo de uma deriva sem salvação, apesar dos danos imperdoáveis já por si causados durante a sua afirmação. Eu sei que me responderão, do Chega, que não querem ser salvos de coisa nenhuma, e que a minha afirmação é inaceitavelmente sobranceira. Também sei que me responderão, dos anti-Chega, que o Chega não tem salvação alguma, e que a minha afirmação é ingénua. A ambos respondo que sei o que digo, e fica aqui escrito para memória futura: o Chega é o que é, mas pode evoluir para melhor ou para pior, e tal não depende só de si; o tempo o dirá. E o regime beneficiará com ou pagará caro por isso, em função da resposta que o tempo der.

É de Churchill a frase de que “os problemas da vitória não são menos complexos do que os da derrota, mas são bem mais agradáveis”. Complexidade, de facto, não falta à AD. Mas nada, com excepção de para aqueles que acham sempre que estão a viver tempos novos e de fim da História, é definitivo.

Luís Montenegro definiu o "não é não" como peça central da sua estratégia de alianças. E foi com essa afirmação que ganhou as eleições. Ganhou. Não sei de que vale agora especularmos sobre isso, mas estou convencido que se não o tivesse afirmado, quem, ao centro, repudia a possibilidade de um governo com o Chega não teria votado AD, e quem, à direita, hesitava entre votar AD ou Chega não sentiria nenhuma pressão para o voto útil. Dificilmente teria ficado em primeiro lugar. É verdade que teve praticamente o mesmo número de votos que o PSD (digo agora PSD e não PPD para respeitar a memória esquerdista de Rui Rio) e o CDS somados em 2022, mas teve, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, quase 1 milhão e meio de votos à sua direita (somados Chega e IL). Não sei se isto não é suficiente para considerarmos esta vitória melhor e maior do que a de Pirro.

Dizia que estava particularmente confortável para fazer estas afirmações. Com o à-vontade de quem ainda há 4 meses insistia que Pedro Passos Coelho era melhor opção para o espaço do centro-direita, e continuando ainda agora convencido disso (por várias razões), não posso deixar de ficar chocado com os ataques de “fogo amigo” que Montenegro está a sofrer. O homem teve coragem e escolheu uma estratégia, derrogou o derrogável e agregou o agregável, chamou gente competente de várias áreas, elaborou um programa competente e alternativo ao do PS, ganhou as eleições no cenário mais difícil com que o PPD se deparou, e vai ser indigitado Primeiro-ministro. Se isto, depois de quase uma década na oposição e várias derrotas pelo caminho, mais do que o benefício da dúvida, não merece o apoio do seu espaço político, não sei o que merecerá.

Há um ensurdecedor rumor que se ouve por aí: o de que este será um Governo de curta duração e de que Montenegro tem os dias contados. A isso quero responder o seguinte: outra lição que podemos vir a tirar destas eleições é a de que as notícias da morte do Governo e de Montenegro talvez possam ser excessivamente exageradas.

Veremos.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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Não é um “não é não”; eram dois e agora são três

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18.03.2024

Se a direita portuguesa não é a mais estúpida do mundo, é pelo menos a mais ingénua. Nos 50 anos do 25 de Abril conseguiu a mais expressiva vitória sobre a esquerda da história da democracia e, no lugar de a aproveitar, ameaça enredar-se na mais estapafúrdia armadilha desde a Geringonça: a tese dos 3 blocos, polvilhada com ajustes de contas. Mas já lá vamos. Primeiro, alguns esclarecimentos. Não é um “não é não”; eram dois e agora são três: “não é não” ao Chega no Governo; “não é não” ao Partido Socialista; e “não é não” à tese dos 3 blocos.

Vejamos, para já, um pouco mais detalhadamente a tese do primeiro “não é não” no quadro da distribuição de poder actual. Não sem antes, perdoar-me-ão, fazer um esclarecimento pessoal, que eu sei que não vos interessa nada, mas que é essencial para perceber certas posições que, deturpadas ao longo do tempo, assumiram formas estranhas às intenções originais: escrevo estas linhas a partir do duplo conforto de ter subscrito o manifesto A Clareza Que Defendemos, no Público, há 4 anos, e de ter escrito aqui, há 4 meses, um artigo com o título Luís, acha mesmo que é melhor do que o Passos Coelho para o que aí vem?. Disse conforto, porque repetiria cada palavra escrita, e porque partindo dessas posições, me sinto, agora, muito à-vontade para dizer o que se segue.

O “não é não” ao Chega, que defendi embrionariamente no A Clareza Que Defendemos e mais recentemente em plena campanha eleitoral, significa que a direita clássica não é a mesma coisa que a direita populista, que essas diferenças devem ser compreendidas, e que essa compreensão impede a amálgama – leia-se: confusão, embrulhada e miscelânea. Dito isto, do ponto de vista da relação da direita clássica (PPD e CDS) com o Chega, pragmaticamente o “não é não” aplica-se nos dois primeiros níveis de relacionamento face ao poder: (i) a participação do Chega no governo e (ii) o estabelecimento de um pacto formal de governo. Em ambos os níveis, “não é não”. Aliás, Luís Montenegro foi, depois do massacre a que foi sujeito, e antes de si Rui Rio, com a obstinada fixação com o Chega, absolutamente claro: “Eu nunca farei um acordo político de governação com o Chega”.

Agora, depois disto, considerar que tal impede a AD de (iii) negociar medidas e conversar no Parlamento com o Chega é uma loucura com tal cunho antidemocrático, que só é razoável na mente de quem considera natural uma coligação do PS com partidos extremistas e saudosistas de ditaduras e quer condicionar a direita no exercício democrático do poder.

E isto, e não só, porque teríamos que somar aqui o rasto de degradação das instituições, de empobrecimento colectivo e de destruição do estado social, resultado dos 22 nos últimos 30 anos e dos últimos 9 anos de governação socialista, leva-nos ao segundo “não é não”: a viabilização de qualquer governo socialista........

© Expresso


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