Consta que Churchill disse qualquer coisa como “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de meia hora com um eleitor mediano”. Não fui verificar, e o homem presta-se a citações abusivas, mas para o que nos interessa a frase está certa. Tenho, porém, uma melhor: “a melhor forma para perceber o estado da democracia é um programa de meia hora de comentário político”.

Parece quase unânime, entre comentadores, que Pedro Nuno Santos venceu o debate da passada 2ª feira. Compreendo: se os critérios forem desfaçatez despudorada, inconsequência atrevida e linguagem corporal aguerrida, talvez tenham razão. Já se os critérios forem ponderação, sentido de responsabilidade e razão nas propostas para a resolução dos problemas, não vejo como é que um homem que foi governante, em pastas vitais para a governação do país, durante 7 dos últimos 8 anos, e que não só não repudia essa herança como a confirma, nem apresenta programa diferente, pode ter ganho o debate. Mas, lá está, com uma política vivida ao momento, onde aqueles critérios são os mais premiados na espuma dos dias, percebe-se a quase “unanimidade” das escolhas. E também se percebe, claro, o estado da qualidade do nosso debate público.

A verdade é que, nestes formatos, a diversidade e complexidade dos temas, e a velocidade do próprio debate, não permite à generalidade das pessoas (o tal eleitor mediano de que, supostamente, Churchill nos falava) assimilar e perceber, na maior parte do tempo, o que se está discutir. Não digo isto por condescendência, mas por realismo. Ora, quando isso acontece, ganha a forma sobre a substância. Foi o que aconteceu, e foi a isso que a generalidade dos comentadores/avaliadores se dedicaram: se o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha, por cá, em matéria de ilusão pantomineira, ganha o PS.

Certo, certo é que quem já escolheu, confirmou a escolha: um penálti na nossa área é sempre simulação, uma queda na área do adversário é sempre penálti. O que interessa agora saber é para que lado e em que área caíram (e cairão) os indecisos, e se quem vai marcar o penálti consegue marcar golo.

Tenho feito, ao longo dos anos, várias “reclamações” ao espaço da direita tradicional, de que faço um muito rápido sumário: i) uma convergência partidária, onde a eficácia eleitoral e o propósito maior sejam maiores do que os detalhes diferenciadores; ii) a derrogação de qualquer equívoco que possa levar o eleitorado a crer que não existem diferenças estruturais, substantivas e essenciais entre a direita tradicional e a direita populista; iii) a apresentação de um programa de governo executável, responsável, realista e alternativo ao do PS; iv) a mobilização de figuras da sociedade civil para esse projecto; v) a rejeição inequívoca de qualquer possibilidade de viabilizar um governo socialista; e, em síntese, vi) o lançamento de uma nova esperança para Portugal.

Luís Montenegro nunca foi verdadeiramente a minha aposta para dar corpo a estas reclamações, e não deixei de lhe fazer, a si e a alguns dos seus conselheiros, várias críticas ao longo do tempo. Mas, e pur si muove, como diria Galileu: Montenegro i) refundou a Aliança Democrática; ii) afirmou inequivocamente o “não é não”; iii) apresentou um programa equilibrado e responsável, alternativo ao socialismo, sem cair em tentações demagógicas e populistas; iv) mobilizou para o efeito um alargado número de economistas e especialistas em matérias diversas, alguns que fazem até parte das listas de candidatos a deputados; v) tem resistido com inteligência aos erros de avaliação de alguns que admitem viabilizar um governo socialista minoritário; e, com isto, e focado na vitória, vi) tem trazido a esperança de que os dias de socialismo nepotista e empobrecedor poderão ter chegado ao fim, mas que tal só é possível com a vitória da AD.

A campanha começou agora e, como toda a gente neste país aprendeu com esse filósofo do norte, os prognósticos só se fazem no fim do jogo, mas lá que Luís Montenegro parece ter mais posse de bola e maior eficácia ofensiva, parece. Para já, ao intervalo: Luís Montenegro 1 - Pedro Nuno Santos 0.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

QOSHE - Luís Montenegro 1 – Pedro Nuno Santos 0 (ao intervalo) - Pedro Gomes Sanches
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Luís Montenegro 1 – Pedro Nuno Santos 0 (ao intervalo)

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26.02.2024

Consta que Churchill disse qualquer coisa como “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de meia hora com um eleitor mediano”. Não fui verificar, e o homem presta-se a citações abusivas, mas para o que nos interessa a frase está certa. Tenho, porém, uma melhor: “a melhor forma para perceber o estado da democracia é um programa de meia hora de comentário político”.

Parece quase unânime, entre comentadores, que Pedro Nuno Santos venceu o debate da passada 2ª feira. Compreendo: se os critérios forem desfaçatez despudorada, inconsequência atrevida e linguagem corporal aguerrida, talvez tenham razão. Já se os critérios forem ponderação, sentido de responsabilidade e razão nas propostas para a resolução dos problemas, não vejo como é que um homem que foi governante, em pastas vitais para a governação do país, durante 7 dos últimos 8 anos, e que não só não repudia essa herança como a confirma, nem apresenta programa diferente, pode ter ganho o debate. Mas, lá está, com uma política vivida ao momento, onde aqueles critérios........

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