Portugal não precisa apenas de boas empresas
Portugal tem muitas boas empresas. Tem empresários competentes, produtos de qualidade, indústrias exportadoras, conhecimento técnico acumulado e uma capacidade notável de adaptação. Mas tem também um problema que raramente discutimos com a frontalidade necessária: muitas das nossas melhores empresas não conseguem ganhar escala.
Crescem até certo ponto, estabilizam, tornam-se rentáveis, respeitadas e prudentes — e depois ficam ali. Não morrem, mas também não dão o salto. Continuam boas, mas não se tornam determinantes. Continuam competitivas, mas não passam a liderar. Continuam a exportar, mas não ganham a dimensão necessária para influenciar mercados, atrair mais talento, financiar inovação permanente ou competir com grupos europeus e internacionais muito maiores.
Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Em 2024, Portugal tinha cerca de 1,59 milhões de empresas, mas apenas 1.723 eram grandes empresas. Ou seja, a nossa economia continua esmagadoramente assente em empresas de pequena e média dimensão. Isto não é, por si só, um defeito. Mas torna-se uma limitação quando empresas com potencial para crescer permanecem sistematicamente abaixo da escala necessária.
A escala não é vaidade. É a diferença entre vender soluções/produtos e controlar canais. Entre fazer inovação pontual e ter equipas permanentes de investigação e desenvolvimento. Entre sobreviver em mercados externos e influenciar esses mercados. Entre pagar salários possíveis e pagar salários capazes de reter talento. Entre ser fornecedor de alguém e ser uma empresa que decide.
Durante muitos anos, habituámo-nos a elogiar as PME como se a pequena dimensão fosse, por si só, uma virtude. Em muitos casos é: as pequenas e médias empresas são a base da economia, criam emprego, preservam conhecimento e mantêm território. Mas há uma diferença entre valorizar as PME e aceitar que empresas com potencial para serem grandes permaneçam pequenas. Essa confusão custa-nos riqueza, produtividade e poder económico.
O problema português não é a falta de bons empresários. É a falta de condições — culturais, financeiras, institucionais e fiscais — para que bons empresários possam transformar boas empresas em empresas grandes.
Há aqui uma dimensão cultural que convém não esconder. Portugal mantém uma relação difícil com o sucesso empresarial. Admiramos o empresário quando começa do zero, trabalha muito, emprega pessoas e exporta. Mas começamos a olhar de lado quando cresce, compra concorrentes, se capitaliza, ganha dinheiro, profissionaliza a gestão ou ambiciona liderar um setor. A inveja é uma palavra desconfortável, mas existe. E existe também uma suspeição quase automática perante quem quer ser maior.
Esta atitude tem consequências. Faz com que muitos empresários sintam que crescer demais é expor-se demais. Que ganhar escala é atrair ruído. Que consolidar um setor é ser acusado de querer dominar. Que abrir capital é perder identidade. Que vender parte da empresa a um........
