Fisioterapia no SNS: a burocracia adoece mais do que trata
O Sistema Nacional de Saúde continua a tratar a fisioterapia como um luxo administrativo, e não como um cuidado essencial. Para chegar a um fisioterapeuta no SNS, um utente precisa, no mínimo, de duas consultas médicas obrigatórias — primeiro o médico de família, depois o fisiatra — antes sequer de iniciar tratamento. Este percurso, que muitos consideram apenas um detalhe burocrático, tem consequências reais: meses de espera, custos duplicados e agravamento clínico evitável.
Um estudo exploratório que desenvolvi recentemente revela um padrão preocupante: a prescrição médica não reflete a necessidade clínica dos utentes. Pelo contrário, mostra uma uniformização artificial que nada tem de científica. Como se lê no documento, “a prescrição revelou-se altamente concentrada: o código 60377 foi utilizado em 100% dos casos”, independentemente da idade, diagnóstico ou gravidade.
Isto significa que pessoas com lesões músculo-esqueléticas, neurológicas ou cardiorrespiratórias recebem praticamente os mesmos códigos. Não porque isso faça sentido clinicamente, mas porque o sistema está desenhado para funcionar assim. A prescrição médica tornou-se um ritual administrativo, não um instrumento de decisão terapêutica.
A burocracia custa caro — e não só em dinheiro
O SNS gasta anualmente quase 180 milhões de euros em convenções de MFR. Mas o que este estudo mostra é que grande parte desse investimento é canalizado para atos padronizados e de maior valor económico, mesmo quando não são os mais adequados. Ou seja: o sistema paga mais, sem tratar melhor. E paga duas vezes: Consulta de médico de família para emissão do P1,........
