Quem, em nosso país, não está em crise?
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"
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O que significa ser de esquerda em 2026?
Como disse Betinho, a indignação é a minha forma de me manter vivo
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Rubem Alves escreveu "As duas caixas" (27 de abril de 2010) dias antes da minha primeira coluna ser publicada na Folha (1º de junho de 2010). Ele contou que Fernando Pessoa escrevia, lia o que escrevera e se assombrava. "Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? Isto é melhor do que eu..."
"Coisa parecida acontece comigo. Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas não o reconheço. É como se tivesse sido escrito por uma outra pessoa. Mas, à medida em que vou lendo, vou ficando alegre. É um texto bom, melhor do que eu!... Sinto, então, vontade de publicar aquele texto de novo. Se ele surpreendeu a mim, é de se esperar que o mesmo aconteça com os leitores. E por que não?"
Quando reli a coluna "Medíocres ou guerreiros" que escrevi sobre o governo de Fernando Collor de Mello, no Jornal do Brasil de 18 de novembro de 1990, me assombrei com a minha coragem e indignação. E me deu vontade de publicar aquele texto de novo. Por que não?
Medíocres ou guerreiros
Vivemos uma época de crises. Dizer isso já virou lugar comum. Crise de valores, crise social, crise econômica, crise política, crise da família, crise individual... Quem, em nosso país, não está em crise?
Pesquisas recentes demonstram que aumentou, vertiginosamente, o número de casos de doenças mentais... Muitos sonham em sair do Brasil, buscando um lugar sem violência ou desemprego. Outros desfazem casamentos para preservar a própria "individualidade". Amor e sexo transformaram-se em artigos de consumo, descartáveis. A palavra "compromisso" é "out". O país está doente. Filhos matam pais. Pais matam filhos. Maridos matam esposas. A mídia manipula facilmente a opinião pública. A desesperança impera soberana.
Decisões e atitudes do governo Collor são aceitas por todos, acriticamente, passivamente. Desde os episódios grotescos e vergonhosos da campanha eleitoral até atos recentes de corrupção descarada. Um governo medíocre, manipulador, corrupto, incompetente e sem nenhuma ética. Com um único mérito: usar e abusar dos veículos de comunicação em massa. Um governo maquiado de moderno e inovador, mas que, na verdade, é vazio de propostas e ideais sociais. E a fachada está ruindo apodrecida precocemente.
E nós, onde ficamos? Qual é a nossa responsabilidade frente a esta situação? "O que fazer?" Somos, sem dúvida, muito mais covardes, medíocres e infelizes do que éramos na época que sabíamos lutar. Quando ser "de esquerda" não era um problema existencial... Hoje vivemos uma profunda crise de identidade. Nossos valores, ideais, estão escondidos, envergonhados, em busca de uma nova definição. Somos pressionados pelo "consenso".
Os guerreiros, os revolucionários de tantos anos, que sabiam gritar, lutar e chorar, não sabem como enfrentar os vermes de caras bonitas e corpos atléticos. Tornamo-nos medrosos, desaprendemos como ousar, criar, acreditar. Como disse Betinho, Herbert de Souza, há algum tempo: "a indignação é a minha forma de me manter vivo". A coragem e a integridade também. O medo, a mediocridade e a resignação são formas de morrer.
Vivemos um momento em que o governo só quer destruir, acabar, aniquilar a cultura, a economia, as universidades, a saúde e, principalmente, a esperança. Nossa única saída é "fugir para a frente", enfrentando essa destruição construindo, reconstruindo, reaprendendo, buscando parceiros nesta enorme tarefa.
Medíocres ou guerreiros... Está em nossas mãos. Quem topa?
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