Emily Dickinson e as vizinhas no telhado
Certas vidas são anomalias que não aceitam explicação. Ou então são como os oráculos antigos – falam apenas para quem consente não compreender tudo.
Emily Dickinson nasceu em 1830, em Amherst, uma pequena cidade puritana da Nova Inglaterra, onde a vida parecia escrita de antemão e o ruído do mundo chegava já amortecido, vindo de longe, como o eco de um outro tempo. Quase não viajou. Mal saiu de casa. Viveu como vivem as raízes – fixas, subterrâneas, mas tocando tudo. A sua biografia, vista de fora, é mínima; a sua obra, vista de dentro, é abissal.
Era pequena, frágil, quase invisível. A sua cama – pequenina como a de uma criança – ainda se conserva, como se o corpo que a ocupou nunca tivesse terminado de crescer. A sua vida lembra certas figuras mitológicas que parecem feitas para o limiar: Perséfone antes de escolher o submundo, Ártemis antes de se afastar dos homens. Descrevia-se a si própria com ironia: um pardal, um ouriço, olhos como restos xerez que alguém esqueceu no fundo de um copo. Retirou-se do mundo sem alarde: cuidou dos pais, ajudou na lida da casa, tratou do jardim e da pequena estufa que o pai mandara construir para ela. E escreveu. Escreveu sempre. Escreveu como outros respiram ou oram.
Não levou uma vida dupla, mas uma vida secreta, no sentido latino de secretum – aquilo que é separado, posto à parte. Enquanto cozinhava ou varria, enquanto acompanhava a mãe inválida ou regava as plantas, escrevinhava versos em qualquer superfície: envelopes usados, papéis rasgados, cartões, folhas de jornal. À noite, à escrivaninha, retomava essas frases nascidas no movimento e submetia-as a silenciosa disciplina. O poema não era um arroubo, mas uma forma de paciência.
Durante anos não mostrou os seus textos a ninguém. Quando por fim, já adulta, enviou uns quantos a um crítico, a resposta foi morna, corretiva, incompreensiva. Foi quanto bastou para que regressasse ao anonimato com ainda maior convicção. Não deixou de escrever. Não precisava de leitores. Precisava de exactidão, dessa precisão que os gregos chamavam ἀκρίβεια (akribeia), virtude tanto do........
