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Não há almoços grátis

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20.07.2026

Existe uma curiosa tendência da humanidade para acreditar que cada nova tecnologia inaugura uma era em que as leis da realidade deixam de vigorar. Como se a história pudesse, finalmente, libertar-se do peso da história. Em cada revolução tecnológica renasce a convicção de que os problemas antigos encontrarão soluções simples, rápidas e quase inevitáveis. O vapor prometeu libertar o homem do esforço físico; a eletricidade anunciava uma nova civilização; a Internet parecia destinada a democratizar definitivamente o conhecimento; hoje, a Inteligência Artificial surge frequentemente apresentada como a tecnologia que transformará todas as profissões, revolucionará todas as organizações e conduzirá a humanidade a um novo patamar de prosperidade.

Contudo, há um princípio que atravessa séculos de pensamento económico, científico e filosófico e que permanece notavelmente atual: não há almoços grátis.

A expressão, popularizada pelo economista Milton Friedman, não significa apenas que tudo tem um custo económico. Significa, sobretudo, que cada benefício implica uma escolha, um investimento, uma renúncia ou uma responsabilidade. Nenhum avanço tecnológico escapa a esta regra. A inovação nunca elimina a necessidade de trabalho, limita-se a deslocá-lo. Nunca extingue a complexidade, apenas a transforma. Aquilo que parece desaparecer de um lado reaparece inevitavelmente noutro. Talvez seja precisamente esta verdade que o entusiasmo contemporâneo pela Inteligência Artificial tende, por vezes, a esquecer.

Vivemos numa época em que o futuro é frequentemente apresentado antes de existir. Não é um fenómeno novo. A história da ciência demonstra que a imaginação sempre precedeu a realização técnica. Martin Cooper, o inventor do telefone móvel, confessou ter sido inspirado pelo comunicador portátil do Capitão Kirk em “Star Trek”. Arthur C. Clarke descreveu satélites geoestacionários décadas antes de existirem. William Gibson cunhou o termo “ciberespaço” quando a internet ainda gatinhava. A ficção pergunta: “E se?” E essa pergunta é preciosa, é o combustível da inovação. Mas há um detalhe que se esquece com frequência: a ficção dramatiza o destino, mas quase nunca ensina como lá chegar. O comunicador de Kirk funcionava sem explicar cobertura de rádio, latência, espectro eletromagnético ou duração de bateria. Os carros voadores de Blade Runner, designados por Spinners, ignoravam a densidade energética das baterias, a certificação aeronáutica e o controlo de tráfego. A ficção aponta a direção, mas quem constrói o caminho é a engenharia.

Hoje, a Inteligência Artificial vive uma espécie de febre coletiva. Nas apresentações para investidores, nos pitches de startups, nas previsões sobre o futuro do trabalho, ouvimos ecoar as mesmas vozes que outrora anunciaram........

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