Alcochete vs. Montijo: uma questão a reconsiderar
Ribeiras a transbordar. Campos totalmente alagados. Acessos intransitáveis durante semanas. Foi assim que ficou o Campo de Tiro de Alcochete após a subida do nível das águas, tal como expôs a reportagem exibida pela TVI na última semana e que passou razoavelmente despercebida. Quem não viu, vale a pena ver.
Os especialistas já antecipavam riscos ambientais elevados na construção do futuro Aeroporto Luís de Camões em "leito de cheia". Mas talvez ninguém esperasse que, numa situação verdadeiramente crítica como a que ocorreu nas últimas semanas, as consequências fossem desta dimensão. Para agravar o quadro, é precisamente na zona onde estão previstas as principais infraestruturas que há maior probabilidade de haver inundações.
Este episódio suscita várias reflexões sobre a opção seguida para o novo aeroporto na região de Lisboa. A primeira é de natureza puramente técnica, dado que Alcochete se apresenta como uma operação de engenharia pesada e complexa, que irá ter implicações óbvias no calendário da obra, comprometendo a meta inicial de 2034.
A segunda é do foro ecológico. Tal como alertaram diversos especialistas e organizações como a Agência Portuguesa do Ambiente - além da própria Comissão Técnica Independente - a opção indicada era a mais problemática do ponto de vista da preservação dos ecossistemas naturais e dos recursos hídricos. As cheias não só parecem confirmar esses receios, como demonstram a especial vulnerabilidade daquela região.
Num terceiro nível, é incontornável olhar para o envelope financeiro deste projeto. Num país com as nossas fragilidades, será sensato insistir num aeroporto com estes riscos técnicos e ambientais, cuja fatura final pode ultrapassar os dez mil milhões de euros? Sem colocar em causa os méritos da solução encontrada e a necessidade de reforçar os serviços aeroportuários na capital, parece haver outras prioridades a ter em conta. Sobretudo, quando voltamos a deparar-nos com a escassez de meios do Estado, a incapacidade de resposta às populações e a falta de manutenção das infraestruturas críticas.
O Governo devia olhar para esta questão com pragmatismo e reconsiderar seriamente a hipótese Portela + Montijo - tal como propõe a Associação Comercial do Porto desde 2007. Não só estamos a falar de uma solução muito mais económica, como é mais rápida a implementar e beneficia de um consenso político suficientemente amplo para avançar. Pode não ser a solução ideal, mas é seguramente a que melhor responde às circunstâncias do país.
