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Leixões não pode ser pensado para ontem

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31.03.2026

Portugal tem um problema recorrente quando pensa infraestruturas: decide tarde, planeia curto e executa mal. O novo terminal norte do Porto de Leixões arrisca ser mais um exemplo, e a responsabilidade tem nome: o Governo e o atual ministro das Infraestruturas.

O que está em cima da mesa não é uma visão estratégica. É uma solução de compromisso, mal desenhada, que tenta forçar o futuro dentro de um modelo já esgotado. Em vez de liderar, o Governo está a gerir o problema e a fazê-lo mal.

O mais preocupante nem é a contestação política ou ambiental. Isso faz parte de qualquer grande obra. O sinal de alarme verdadeiro é outro: até a concessionária levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do projeto. Quando quem opera diz que aquilo não é viável no médio prazo, o problema não é de perceção, é de conceção. E isso devia ter levado o ministro a travar, repensar e corrigir. Não levou.

Estamos a discutir metros de quebra-mar, impactos pontuais nas praias, ajustes técnicos. Tudo isto são distrações. O erro está antes: insistir em expandir um porto encaixado num espaço urbano, com limitações físicas evidentes, quando o setor marítimo está a mudar a uma velocidade brutal.

Os navios são maiores. A logística é mais exigente. A automação redefine portos inteiros. E o Governo responde com remendos.

Leixões precisa de escala, sim. Mas precisa sobretudo de liberdade física, algo que simplesmente já não tem dentro da sua configuração atual.

A solução não está em forçar mais um terminal dentro do mesmo perímetro. Está fora dele.

Se o Governo tivesse visão, estaria hoje a lançar um plano para os próximos 100 anos: um terminal offshore, construído no mar, para lá do atual quebra-mar norte. Um projeto de raiz, sem as limitações urbanas, ambientais e operacionais que hoje bloqueiam qualquer decisão séria.

Mas há mais, e aqui a falha política é ainda mais evidente.

O futuro de Leixões não é apenas uma questão portuária. É também uma questão urbana. E nisso, o Governo está completamente ausente.

O porto e Matosinhos vivem hoje numa tensão permanente: pressão sobre a frente marítima, impactos ambientais e conflitos com o uso urbano. Ignorar isto não é neutralidade, é má governação.

Qualquer estratégia séria teria de integrar três dimensões: urbanismo, ambiente e mobilidade. Melhorar a articulação entre o porto e a cidade, otimizar os acessos dedicados existentes, reforçar a aposta na ferrovia e reduzir a pressão logística sobre a frente urbana. Ao mesmo tempo, é essencial reorganizar a frente marítima e garantir uma convivência equilibrada entre atividade portuária e espaço urbano.

E é precisamente aqui que entra mais um erro grave de conceção: a proposta de uma nova marina de recreio.

Apresentada como solução complementar, esta ideia parte de um pressuposto errado. Não é apenas uma distração, é muito provavelmente inviável neste contexto. E mais do que isso, ao tentar forçar a convivência entre uma marina e a expansão portuária naquele espaço, arrisca-se colocar em causa a própria viabilidade da atividade de recreio a médio prazo.

Não se trata de compatibilizar usos. Trata-se de reconhecer que, naquele local e com aquela pressão operacional, essa coexistência não é realista. Insistir nisso não resolve problema nenhum, cria mais um.

Nada disto está a ser liderado pelo ministro. Nada.

E depois há o caso mais difícil de justificar: o terminal multiusos.

Tem parecer favorável da Agência Portuguesa do Ambiente há mais de três anos. Está pronto para avançar. E o que fez o Governo? Parou-o. Meteu-o na gaveta.

Num país onde tudo demora, parar o que já está aprovado não é prudência. É incompetência política.

O resultado está à vista: um projeto contestado, um operador desconfiado, uma cidade em conflito e uma região a perder tempo e competitividade.

A escolha não é entre fazer ou não fazer. É entre fazer bem ou repetir erros.

O Governo escolheu repetir.

Mas ainda vai a tempo de corrigir.

Travar este modelo. Lançar um plano sério para um novo terminal no mar, faseado e preparado para o futuro. Integrar o porto com a cidade de forma inteligente. E desbloquear imediatamente o que já tem luz verde, como o terminal multiusos.

Leixões não precisa de mais uma obra mal pensada.

Precisa de liderança.

E essa, neste momento, não está onde devia estar.


© Jornal de Notícias