Djamila Ribeiro discorda, mas não deixa discordar
Eu tinha um argumento pronto contra o conceito de lugar de fala. Ele durou 37 páginas. Djamila Ribeiro relança o conceito num curso novo, e a notícia me deu vontade de reler o livro de 2017 com ele aberto na mesa e a caneta na mão.
Meu argumento era o de sempre, o que se ouve em qualquer mesa de bar à direita: que o conceito reduz a verdade à vivência e termina num essencialismo de balcão. O livro responde antes de ser perguntado. Diz, com todas as letras, que a coisa não tem absolutamente nada a ver com a visão essencialista de que somente o negro pode falar sobre racismo. Diz que o lugar social não determina a consciência discursiva de quem o ocupa. Diz que todos têm lugar de fala e que um homem branco pode teorizar sobre a realidade de quem ele não é. Concedo tudo sem barganhar. Quem ataca o conceito por aí briga com um texto que não existe. Eu estava.
O problema começa depois. A certa altura do livro vem uma lista do que o sujeito branco alega ao ser confrontado com o que preferiria não saber: não saber, não conhecer, não lembrar, não acreditar ou não ter sido convencido. Tudo comparece como repressão, no sentido freudiano.
Leia devagar. Os quatro primeiros descrevem alguém que se esquiva e se faz de morto. O quinto descreve outra pessoa: ficou na sala, ouviu até o fim e respondeu que não. Fez o que se pedia dela, e entrou na mesma lista, com o mesmo diagnóstico.
Sou contra o lugar de fala quando ele deixa de ser uma descrição das desigualdades da escuta e passa a funcionar como tribunal da........
