Onze violações por semana. E ninguém conta
ONZE POR SEMANA. E NINGUÉM CONTA.
Uma mulher numa esquadra. De noite. A contar o que lhe fizeram. Espera. Assina papéis. Volta para casa. No dia seguinte cruza-se com o agressor à porta da escola dos filhos. Quinhentos metros de afastamento. A vila tem trezentos.
Quinhentas e setenta e oito violações em 2025. Valor mais alto da última década. Onze por semana.
O Relatório Anual de Segurança Interna foi aprovado. A criminalidade geral subiu 3,1%. A violenta desceu 1,6%. Quatro preocupações: tráfico, violência doméstica, sinistralidade, imigração ilegal.
A violência sexual não é nenhuma delas.
Onze mulheres violadas por semana. E o tema não mereceu menção autónoma. O que é preciso para que mereça?
O relatório responde, mesmo sem querer.
Violência doméstica: 29.644 participações. Mais de 44 mil vítimas. 69% mulheres. Vinte e sete mortos. Vinte e uma mulheres. Quatro homens. Duas crianças. Violência contra menores: mais 8,6%. São 1.122 casos. Quase três mil agressores têm menos de 25 anos.
Oitenta e seis têm menos de 16.
Dezasseis anos. Idade de andar na escola. Idade de bater numa mulher.
Não são excepções. É direcção. Uma reacção contra as mulheres que ganharam espaço, voz e direitos. Uma reacção que não precisa de partido, de farda nem de manifesto. Precisa de um ecrã.
A VIOLÊNCIA QUE COMEÇA NO ECRÃ
Nos fóruns onde a misoginia é humor. Nos vídeos onde a masculinidade se mede pela submissão do outro. Nos canais que vendem ódio às mulheres como verdade proibida. Rapazes de catorze e quinze anos consomem isto todos os dias. Ninguém lhes tira o telemóvel. Ninguém lhes explica o que estão a ver. Quando chegam a adultos já têm o vocabulário completo: a mulher é objecto, obstáculo ou propriedade.
A Linha Internet Segura registou mais 92% de crimes sexuais contra crianças online num só ano. O RASI alerta para um crescimento expressivo da pornografia de menores. Vítimas coagidas a partilhar imagens após aliciamento em plataformas de jogos e redes sociais.
Os predadores encontram-nas onde os nossos filhos passam o dia. O ecrã que lhes damos para se entreterem é a porta por onde entra quem os quer destruir.
Escrevi sobre o pai que batia e a criança que pedia para parar. Sobre quinhentos metros que não protegem. Sobre a justiça que chega tarde e chega vazia. Cada artigo sobre um caso diferente. Todos sobre o mesmo silêncio.
SEIS EM CADA DEZ
Dos 38.749 inquéritos por violência doméstica, mais de 23 mil foram arquivados. Seis em cada dez. Um terço das mulheres que pedem ajuda não chega a apresentar queixa.
Denunciar, para muitas, não é o fim do medo. É o princípio de outro.
É neste contexto que Carlos Cabreiro assume a direcção da Polícia Judiciária. Cinquenta e nove anos. Na PJ desde 1991. Dez anos à frente do combate ao cibercrime. Foi a equipa dele que deteve Rui Pinto. A ministra da Justiça chamou-lhe o homem certo, no momento certo. Concordo. Falei de cibersegurança em Bragança e em Paredes. Disse o que os dados agora confirmam: setenta a oitenta por cento da criminalidade futura vai passar pela internet. Cabreiro sabe-o. O desafio que tem pela frente não é investigar o crime de ontem. É interromper o que está a ser ensinado hoje.
Mas nenhuma polícia resolve sozinha o que estes números mostram. O problema começa antes. Na escola que não ensina igualdade. Nos algoritmos que monetizam a raiva. Nos tribunais que arquivam. E numa sociedade que arruma a violência contra as mulheres na gaveta do doméstico. Como se doméstica significasse menor. Como se a porta de casa fosse o limite da nossa responsabilidade.
Quinhentas e setenta e oito violações. Vinte e uma mulheres mortas. Crianças exploradas online. Agressores que ainda são adolescentes.
O relatório conclui que o país permanece globalmente seguro.
Seguro para quem?
A mulher na esquadra quer saber.
A adolescente cujo predador está a um clique quer saber.
As que amanhã vão pedir ajuda e encontrar um sistema mais lento do que o perigo querem saber.
Onze por semana. Todas as semanas. E ninguém conta.
