Verdade comprovada ou mentira bem apresentada: o legado que deixaremos aos nossos netos
No dia 9 de julho, o Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado à Universidade de Oxford, publicou a edição 2026 do relatório Journalism, Media and Technology Trends and Predictions. O estudo reuniu centenas de dirigentes de empresas jornalísticas de vários continentes e registrou uma percepção comum: a disputa central deixou de ocorrer apenas entre informação verdadeira e desinformação organizada.
Um processo mais profundo ganhou força, deslocando o eixo da influência pública das instituições para indivíduos capazes de produzir narrativas persuasivas em escala global. A conclusão coincide com levantamentos do Digital News Report 2026, segundo os quais cresce o número de cidadãos que abandonam o consumo regular de notícias, enquanto vídeos curtos, influenciadores digitais e sistemas de inteligência artificial passam a ocupar parte desse espaço informativo.
A confiança muda de endereço
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa mudança. O Digital News Report 2026 mostra que, em diversos mercados pesquisados, menos da metade da população declara confiar na maior parte das notícias durante a maior parte do tempo. O consumo de vídeos informativos continua em expansão, sobretudo entre pessoas com menos de trinta e cinco anos, enquanto cresce a utilização de ferramentas de inteligência artificial para resumir reportagens, responder a perguntas e produzir interpretações sobre acontecimentos políticos, econômicos e culturais.
O fenômeno alcança democracias consolidadas, economias emergentes e países marcados por forte polarização ideológica, revelando um movimento estrutural, distante da condição de episódio passageiro.
Esse cenário possui raízes históricas identificáveis. Durante boa parte do século XX, universidades, editoras, academias científicas, tribunais, parlamentos e organizações jornalísticas funcionavam como instâncias responsáveis por conferir legitimidade ao conhecimento compartilhado. Eram estruturas imperfeitas, sujeitas a interesses, disputas internas e erros graves, porém desenvolviam mecanismos permanentes de verificação, revisão, responsabilização pública e preservação da própria reputação. A autoridade institucional resultava menos da popularidade do momento do que da capacidade acumulada de atravessar décadas respondendo por suas decisões.
Bastava caminhar pelas grandes capitais durante os anos 1980 e 1990 para perceber esse ambiente. Bancas de jornais ocupavam esquinas estratégicas, revistas semanais influenciavam ministros,........
