Formar leitores deveria ser tratado como prioridade nacional, ano após ano
Uma criança brasileira de 11 ou 12 anos pode ler uma página inteira, pronunciar cada palavra corretamente e chegar ao ponto final sem compreender o que acabou de ler. É como atravessar uma cidade reconhecendo todas as placas e permanecer incapaz de localizar a própria rua. Quando isso acontece em escala nacional, o problema deixa de pertencer apenas à escola: ele compromete a capacidade futura de trabalhar, votar, decidir, desconfiar, argumentar e compreender a própria vida.
Essa imagem descreve uma falha educacional de grande alcance. Ler exige construir relações, perceber intenções, compreender causas, identificar contradições, reconhecer sentidos e formular perguntas. Uma criança que identifica palavras, mas não alcança o pensamento contido nelas, terá menos instrumentos para interpretar injustiça, medo, autoridade, amizade, manipulação, escolha e os acontecimentos que começam a organizar sua própria experiência.
Os dados divulgados pelo Inep em agosto de 2026 registram alguma melhora, embora permaneçam muito abaixo do que um país com mais de 200 milhões de habitantes deveria aceitar. O Ideb — Índice de Desenvolvimento da Educação Básica — do ensino médio passou de 4,3, em 2023, para 4,5, em 2025, numa escala de zero a dez. O índice reúne aprendizagem medida pelo Saeb e progressão escolar.
A elevação de dois décimos precisa ser reconhecida sem indulgência. Uma nota de 4,5, nessa escala, revela a distância que ainda separa o país de um padrão educacional compatível com suas necessidades.
Educação lida com infância, adolescência e tempo humano. Uma criança que chega aos 12 anos compreendendo mal aquilo que lê terá de recuperar mais tarde, com dificuldade muito maior, um repertório que deveria estar sendo consolidado justamente agora.
O Saeb — Sistema de Avaliação da Educação Básica — oferece outra medida da aprendizagem. Em 2025, no terceiro ano do ensino médio, a média de língua portuguesa chegou a 272,3 pontos e a de matemática, a 268, numa escala de zero a 500. Em 2023, os resultados eram de 269,1 em português e 263,9 em matemática.
O avanço foi de 3,2 pontos em língua portuguesa e 4,1 em matemática. A melhora existe, mas sua lentidão deveria provocar reação muito mais severa. Milhões de adolescentes chegarão ao fim da educação básica antes que aumentos dessa magnitude consigam alterar estruturalmente o quadro nacional. Para cada geração escolar, o relógio corre uma única vez.
O país conhece esse problema há décadas. Reformas curriculares foram anunciadas, governos se sucederam, ministros chegaram e partiram, programas receberam nomes novos, metas foram revistas e tecnologias entraram nas salas de aula. Mesmo assim, a insuficiência da aprendizagem atravessou sucessivas gerações e chegou a 2026 ainda capaz de limitar a formação de milhões de crianças e adolescentes.
Essa permanência deveria constranger mais do que habituar. Problemas públicos persistentes precisam ser enfrentados até que deixem de existir em escala socialmente intolerável. Educação exige continuidade administrativa, recursos bem utilizados, formação docente, avaliação independente e disposição política para assumir responsabilidades.
Empurrar o problema de uma geração para outra apenas transforma atraso em herança.
Cada ciclo escolar perdido acrescenta milhões de brasileiros ao contingente daqueles que chegarão à vida adulta com menor autonomia intelectual. O prejuízo não termina no boletim escolar. Ele acompanha decisões profissionais, escolhas econômicas, participação política, relações de trabalho e a capacidade de cada pessoa de compreender aquilo que outros dizem, prometem, vendem ou tentam impor.
Metade ficou para trás
O PISA de 2022 amplia a dimensão dessa deficiência. Apenas 50% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram pelo menos o nível básico de leitura definido pela OCDE. Esse patamar significa conseguir identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, localizar informações relevantes, estabelecer relações simples entre partes do texto e compreender sua finalidade geral. A média dos países da organização chegou a 74%.
Metade dos adolescentes brasileiros avaliados ficou abaixo desse nível justamente quando se aproxima do voto, do primeiro emprego, do crédito, da escolha profissional e das decisões que começarão a organizar sua vida adulta. Trata-se de jovens que poderão ler uma página inteira e ainda encontrar dificuldade para compreender com segurança aquilo que ela pretende informar, provar ou esconder.
A gravidade aumenta quando observamos os níveis superiores. Somente 2% dos estudantes brasileiros chegaram aos patamares em que se exige compreensão de textos extensos, capacidade de lidar com conceitos abstratos, interpretação de informações implícitas e distinção mais refinada entre fato e opinião.
Dois em cada cem. Essa proporção revela a estreiteza da base sobre a qual pretendemos construir universidades, ciência, inovação,........
