Quando a inteligência artificial substitui as esposas dos filósofos! O que Žižek ainda não viu!
Uma coisa profundamente reveladora acontece quando intelectuais consagrados começam a lamentar a chegada da inteligência artificial. Eles nem reclamam porque estejam necessariamente errados em suas preocupações, mas porque seus medos costumam expor pressupostos que permaneceram invisíveis durante décadas.
Recentemente, Slavoj Žižek, que sempre me faz pensar alguma coisa relevante, voltou a expressar sua inquietação diante da inteligência artificial. Em tom apocalíptico, descreveu um mundo em que o ChatGPT escreve artigos, outras inteligências artificiais revisam os textos e novos algoritmos produzem resumos para leitores que já não leem. No final da cadeia, argumenta o filósofo esloveno, a máquina trabalha para a máquina enquanto os seres humanos desaparecem do processo.
A imagem é sedutora e é também incompleta. Explico!
O que talvez mais chame atenção não é a crítica à inteligência artificial em si, mas a forma como ela reproduz uma fantasia recorrente na história intelectual ocidental. A fantasia do homem que pensa sozinho.
Ao longo de séculos, a produção do conhecimento foi narrada como obra de indivíduos excepcionais. Filósofos, escritores, cientistas e acadêmicos apareceram como gênios isolados, quase sempre retratados diante de suas escrivaninhas, produzindo ideias originais por força exclusiva de seu intelecto. Pouco se falou sobre a infraestrutura humana que tornava possível essa produção.
O Efeito Matilda, conceito cunhado pela historiadora da ciência Margaret Rossiter em 1993, descreve o padrão sistemático pelo qual contribuições científicas e intelectuais de mulheres são atribuídas a homens — seus colegas, orientadores ou maridos —, apagando autoria e impedindo reconhecimento institucional. Os casos mais emblemáticos são os de Rosalind Franklin, cujos dados de........
