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Estranhos tempos mórbidos

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Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.

São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

A história presente — um presente mirando o caos, sem ensejar a visão de futuro imediato — pode ser vista como “ponto morto” (tempo sem promessa de avanço ou recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”. Nada obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilização social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto a soluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na América do Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidade autoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas no século passado. 

Este espaço em aberto, ainda não identificado nem classificado, é rico na proposição de impasses. É o quadro da ordem internacional na corrida para o imponderável, que pode ser, até, a grande guerra na qual apostam — ou parecem apostar — os EUA, deixando no seu rastro o avanço quase planetário da extrema-direita, causa ou efeito da regressão mundial das mobilizações populares, filha da crise do trabalho e, como decorrência inevitável, filha da crise do sindicalismo e dos partidos de esquerda, nomeadamente dos partidos socialistas e comunistas ocidentais. 

E sempre incumbe lembrar a lamentável e exemplar exaustão do PCI e do PCF, atingidos de morte pela debacle da URSS, em cuja sequência os partidos comunistas que detinham o poder no Leste Europeu logo saíram de cena, e as insurgências revolucionárias foram aplacadas. Nesse sentido, aproximam-se Europa e América do Sul com seus governos de direita, sob a regência dos EUA em guerra pela conquista do mundo. 

A aventura nazifascista dos anos 30-40 do século passado mina qualquer sorte de surpresa.

Atribui-se a Mark Twain a boutade segundo a qual “a história não se repete, mas rima”. De outra parte, podemos dizer que, no Brasil, ela é recorrente. Em qualquer hipótese, será sempre um óbvio rodrigueano afirmar que o processo político é conduzido pelas alterações das circunstâncias históricas. Com ele trabalhamos. A cada alteração da correlação de forças — sobre a qual atuam os homens e as instituições — corresponde uma nova etapa histórica. É  consabido.  

A etapa de hoje conjuga a crise do capitalismo (um sistema global financeirizado e oligopolista) à expansão do imperialismo norte-americano. Vivemos o rescaldo da frustração contemporânea das promessas e esperanças dos governos de centro-esquerda e........

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