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O Vale do Silício quer governar

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19.04.2026

Um novo manifesto escancara o que antes era implícito. Não se trata mais de inovação, mas de uma disputa direta pelo controle da realidade governável, em que a política cede lugar a sistemas e a soberania é reconfigurada por arquiteturas algorítmicas.

O manifesto do novo poder

Durante anos, o Vale do Silício vendeu a si mesmo como laboratório de inovação, conveniência e futuro. Aplicativos, nuvem, redes, dados, interfaces. Por trás dessa estética limpa, porém, amadureceu outra ambição. Ela agora começa a ser dita sem rodeios. O site de The Technological Republic, livro de Alexander Karp e Nicholas Zamiska, afirma que o Vale “perdeu o rumo” e sustenta que, para preservar a vantagem global dos Estados Unidos e de seus aliados, a indústria de software deve renovar seu compromisso com os desafios estratégicos do Ocidente, inclusive a nova corrida armamentista da inteligência artificial. Não se trata de uma metáfora vaga. Trata-se de uma convocação explícita para recolocar engenheiros, empresas e plataformas no coração da segurança nacional, da política de defesa e da própria definição de interesse público.

O dado mais revelador é que esse horizonte deixou de aparecer apenas em entrevistas longas, livros de circulação restrita ou discursos codificados para investidores. Neste domingo, 19 de abril de 2026, a Palantir publicou no X uma versão resumida, em 22 pontos, da visão de mundo de Karp. O texto sustenta que o Vale do Silício tem uma “dívida moral” com o país que permitiu sua ascensão, declara que “e-mail gratuito não basta”, afirma que o verdadeiro poder coercitivo deste século será construído sobre software, defende a construção de armas com IA, celebra uma nova era de dissuasão algorítmica e termina atacando o que chama de pluralismo vazio, inclusividade abstrata e culturas “regressivas e prejudiciais”. O que antes podia ser tratado como subtexto corporativo virou enunciação direta.

Esse ponto é decisivo porque muda a natureza do problema. Já não estamos diante apenas de empresas que exercem influência excessiva sobre governos, financiam campanhas, fazem lobby ou vendem infraestrutura. Estamos diante de corporações que passaram a formular publicamente uma teoria do poder. E essa teoria parte de uma premissa muito clara: a democracia liberal, com seus ritos, mediações e lentidões, já não seria suficiente para proteger o Ocidente, garantir ordem interna e sustentar supremacia geopolítica. Em seu lugar, entraria uma nova aliança entre software, Estado e poder coercitivo. A crítica feita pelo CEO do Bellingcat, Eliot Higgins, após a publicação do texto da Palantir, foi precisa: os 22 pontos não são filosofia solta no espaço, mas a ideologia pública de uma empresa cuja receita depende justamente da política que ela está defendendo.

Lido isoladamente, esse manifesto já seria grave. Lido à luz do que a própria Palantir representa, torna-se ainda mais eloquente. Não se trata de uma companhia qualquer opinando sobre rumos civilizacionais. Trata-se de uma empresa que cresceu vendendo plataformas para defesa, inteligência, polícia, fronteiras e gestão estatal, e que converteu software em instrumento de decisão operacional. É exatamente esse ponto que atravessa, sob outra chave, reflexões que já vinham sendo desenvolvidas em torno do Vale do Silício e de Peter Thiel: a técnica deixa de aparecer como ferramenta neutra e passa a reivindicar para si uma função de ordem, contenção do caos e reorganização da vida coletiva. Essa mutação já aparecia como crítica ao “cristianismo do capital” e à elevação do engenheiro à condição de novo sacerdote de uma civilização fundada em vigilância, hierarquia e promessa de salvação pela máquina.

É por isso que o manifesto da Palantir precisa ser levado a sério. Não porque seja excêntrico ou provocativo, mas porque condensa com rara nitidez aquilo que parte importante da elite tecnológica vinha insinuando havia anos. O que está em jogo não é apenas uma mudança de discurso empresarial. É a passagem de um setor que antes queria vender soluções para o Estado a um setor que agora pretende redefinir o próprio significado de governar. O manifesto é o sintoma visível de uma transformação mais profunda. E, como quase sempre acontece nas crises históricas, o sintoma apareceu em público quando a doença já estava avançada.

O Vale do Silício deixou de querer apenas influenciar

A leitura isolada do manifesto da Palantir Technologies pode levar ao erro de tratá-lo como um desvio, uma excentricidade ou até mesmo uma provocação retórica. Mas, quando situado no interior do Vale do Silício, ele revela algo mais profundo: uma convergência ideológica que se formou ao longo de décadas e que agora começa a se expressar com clareza. O que está em jogo não é uma empresa falando alto demais, mas um campo inteiro de poder que deixou de aceitar o papel de fornecedor de tecnologia para passar a disputar o papel de organizador da realidade política.

Essa transformação não surge do nada. Ela tem raízes na própria formação intelectual do Vale. Nos anos 1970 e 1980, figuras como Stewart Brand e John Perry Barlow projetaram a internet como espaço de liberdade radical, autonomia individual e fuga das estruturas estatais. A famosa “Declaração de Independência do Ciberespaço”, escrita por Barlow em 1996, afirmava que governos não tinham soberania legítima sobre aquele novo território. Era uma utopia libertária, marcada pela crença de que tecnologia e liberdade caminham juntas.

Com o tempo, essa utopia não desapareceu. Ela foi reconfigurada. A promessa de liberdade foi sendo substituída por uma promessa de eficiência, ordem e capacidade de coordenação superior. Nesse ponto, a virada teórica é decisiva. Pensadores como Curtis Yarvin passaram a defender abertamente que a democracia liberal é um sistema ineficiente, incapaz de lidar com a complexidade do mundo contemporâneo. Yarvin propõe, de........

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