menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O operador interno do golpe: Mendonça produz a crise que Washington precisava

21 0
08.09.2026

André Mendonça atravessou uma fronteira que muda a natureza da crise no Supremo. Ao acusar a inteligência da Polícia Federal de monitorá-lo sistematicamente, falar em “arapongagem institucional”, associar Alexandre de Moraes ao conhecimento dessas informações e recorrer à imagem totalitária de 1984, o ministro deixou de disputar apenas a condução de uma investigação. Produziu uma representação muito mais corrosiva do Estado brasileiro: a de um aparelho público que teria passado a vigiar clandestinamente autoridades do próprio país. Ao afastar a direção da Polícia Federal, colocou Supremo, PF e Executivo numa mesma zona de ruptura. A crise deixou de ser apenas um choque entre ministros e passou a atingir a legitimidade recíproca das instituições.

É justamente aí que está o fato político novo. Durante mais de um ano, Alexandre de Moraes foi construído nos Estados Unidos como o rosto de um suposto regime de censura. Decisões contra plataformas digitais, investigados e operadores da extrema direita foram arrancadas do conflito político brasileiro e traduzidas como ameaça à liberdade de expressão, às empresas norte-americanas e, depois, aos próprios interesses dos Estados Unidos. A narrativa produziu consequências materiais: atravessou o Congresso e o Executivo norte-americanos, alimentou sanções, medidas comerciais e pressão diplomática. Washington já demonstrou que consegue converter uma interpretação política sobre o Judiciário brasileiro em instrumento de coerção.

Mendonça acrescenta agora algo que essa narrativa ainda não possuía. Censura é controle da palavra. Vigilância é poder sobre o indivíduo. A acusação de que um ministro do Supremo teria sido monitorado por estruturas de inteligência exige uma arquitetura muito maior do que a figura isolada de um juiz autoritário. Ela convoca polícia, coleta de informações, circulação de dados, cadeia de comando e conhecimento institucional. Moraes pode deixar de ser apresentado apenas como o magistrado que silencia adversários e passar a ser associado à imagem de um sistema que observa, investiga e neutraliza. Mendonça não falou em “deep state brasileiro”, mas colocou em circulação uma linguagem que pode ser traduzida nessa direção com facilidade.

Isso não significa que suas acusações estejam definitivamente provadas. Elas precisam ser investigadas, confrontadas e submetidas ao devido processo. Essa distinção é indispensável porque a força política do episódio nasce justamente da diferença entre o tempo da prova e o tempo do poder. Uma investigação precisa........

© Brasil 247