Jango e o Brasil que não deixaram nascer
Poucos projetos políticos da história brasileira foram tão ambiciosos — e tão interrompidos — quanto às Reformas de Base propostas no governo João Goulart.
Mais de seis décadas depois do golpe de 1964, o debate sobre aquele programa permanece atual, não como exercício nostálgico, mas como chave para compreender por que o Brasil segue preso a dilemas estruturais que nunca conseguiu resolver.
As Reformas de Base não eram um conjunto disperso de medidas, constituíram um projeto coerente de transformação do Estado e da sociedade, voltado a enfrentar desigualdades históricas, romper a dependência externa e consolidar uma democracia social efetiva. Tratava-se de modernizar o país não apenas economicamente, mas também política, social e culturalmente, tudo dentro do capitalismo.
Um projeto de país, não um improviso
Diferentemente da narrativa construída após 1964, João Goulart não governava sem rumo. Seu governo reunia alguns dos principais intelectuais brasileiros do século XX — Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Florestan Fernandes, San Tiago Dantas, entre outros — e dialogava com o que havia de mais avançado no pensamento desenvolvimentista e democrático da época.
O núcleo das reformas........
